sexta-feira, 30 de maio de 2014

DITOS SECTÁRIOS I



Erenildo João Carlos

Costumeiramente, escuta-se, no Brasil, falar que ´religião, política e futebol não se discute. O curioso é que ouvir esta afirmativa gera um certo estranhamento, sobretudo quando sabemos que vivemos em um país com uma forte tradição religiosa, com uma história de luta a favor da democracia e com uma enorme admiração pelo futebol! Ao ouvir, ponho-me a pensar sobre os possíveis motivos que impediriam as pessoas de conversarem sobre tais assuntos.

Parece-me que, à primeira vista, um aspecto da questão se encontra na formulação ‘não se discute’, um fragmento que poderia ser lido como ‘não se dialoga’. Se estivermos corretos em nossa análise, podemos concluir que os temas da religião, da política e do futebol seriam, sim, objeto das conversas cotidianas. Entretanto, de uma espécie de conversa, marcada pelo jogo do dizer retórico, orientada pela disputa e pela defesa de uma opinião determinada, de um ponto de vista específico, de uma perspectiva assumida. Ou seja, uma conversa que não seria pautada no diálogo, no desejo de compartilhar ideias e do entendimento conjunto. Uma conversa deste tipo é profundamente solitária, pois, nela o interlocutor falante, fala consigo mesmo, em uma espécie de cena, cujo roteiro, conteúdo e argumentação consiste, unicamente, em expressar para o outro o que se crê, o que se pensa, o que se admira, o que se deseja. Sem ouvir, o outro da conversa-monólogo seria o eu falante, ouvinte de si. O monólogo impede o diálogo, porque ele é auto referenciado!

Nota-se, aqui, um segundo aspecto da conversa-monólogo: as coisas ditas são alimentadas por uma motivação belicosa. No lugar do diálogo instaura-se a disputa, a luta, a polêmica. Neste cenário, vence quem escolher e utilizar as melhores estratégias de desqualificação, de desconsideração, de rebaixamento, de silenciamento, de humilhação, de apropriação ressignificada. Nele, o estado é de alerta, de defesa e de ataque. Nele, as estratégias são escolhidas em função da disputa que se pretende travar, do interlocutor-inimigo que se combate, da natureza da questão enfrentada, das implicações das ideias proferidas, da argumentação construída, dos interesses em jogo. Na conversa-guerra não há lugar para o diálogo, mas para vitórias a serem conquistadas e derrotas a serem evitadas!

Um terceiro aspecto desta conversa consiste na impossibilidade do falante ouvir com o intuito de entender e aprender, de falar com o objetivo de compartilhar o saber que se tem. Isto porque, ao conceber o outro como interlocutor-inimigo, o outro sempre será visto como uma ameaça, um perigo, um risco, um desvio, um estranho... Que poderá pôr em questão a tradição aceita, o dogma estabelecido, o interesse defendido, a verdade consagrada, o sentido instituído, o consenso normatizado, a moralidade concebida, o sagrado compartilhado, a preferência assumida coletivamente. Com o interlocutor-inimigo não se busca o entendimento, mas o convencimento!

Observa-se, que, quando as conversas cotidianas em torno do tema da religião, da política e do futebol são pautadas no parâmetro do monólogo, do agir comunicativo belicoso, da concepção de um interlocutor-inimigo, elimina-se a possibilidade do diálogo, do entendimento e da partilha edificante do saber vivido individual e historicamente construído em torno dos referidos temas. 

Com efeito, nossa reflexão aponta para o fato de que os ditos proferidos pelos falantes, numa situação de disputa, se configuram, de um lado, por um modo de dizer específico, que podemos denominar de sectário; de outro, que os ditos sectários seriam uma das principais razões da impossibilidade do exercício do diálogo. Neste contexto, conversar sobre religião, política e futebol funciona como uma estratégia de reprodução social de uma concepção de mundo profundamente sectária. Portanto, em uma cultura do sectarismo não há lugar para o diálogo!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

DITOS OPINATIVOS



Por Erenildo J. C.

Os ditos opinativos se apresentam como um acontecimento da linguagem, evidenciado no cotidiano, cujo conteúdo codifica um tipo de saber que se tem sobre algo. Enquanto fala e enunciação, este fenômeno pode ser observado e constatado no cotidiano de nossa biografia existencial, experiência social e registros históricos. Nota-se, portanto, sua presença em conversas familiares, em bate-papos entre amigos, em aulas ministradas nas escolas, em programas de televisão, em pregações religiosas, em documentários e entrevistas, em pronunciamentos de governantes, enfim, em qualquer tempo, lugar e situação em que ocorra a enunciação de algo, um gesto de comunicação, o exercício efetivo da fala entre diferentes tipos de indivíduos e sujeitos sociais.

Não obstante a evidência do acontecimento dos ditos opinativos em nossa vida diária, o seu reconhecimento não se apresenta como uma obviedade, isto é, como algo cotidianamente evidente para os sujeitos falantes e ouvintes. Em outros termos, nem sempre os sujeitos que se expressam opinativamente têm a devida consciência disto, seja em uma situação de comunicação, seja de seus efeitos sociais. Certamente, a não obviedade do evidenciado acontecimento exige uma reflexão mais cuidadosa sobre o assunto. De modo que se tenha, sobre ele, uma clareza do que, de fato, seja um dito opinativo e o saber que pretende ter.

Nesta perspectiva, parece-me que uma constatação que se pode fazer do exercício de observar os ditos opinativos no cotidiano diz respeito ao fato de que ele representa um gênero de fala, que registra a percepção, interpretação e um determinado tipo de saber do indivíduo sobre as coisas do dia-a-dia. As coisas ditas de forma opinativa não teriam fundamento consistente, haja vista ser um campo onde se pode combinar e se relacionar fatos com crenças, sentimentos com interesses, desejos com percepções, mitos com realidades. Enfim, a experiência e a subjetividade do indivíduo se constituiriam na fonte primária das formulações opinativas que se tem sobre as coisas. O conhecimento deste fato no coloca em estado de alerta com relação aos fundamentos dos ditos opinativos!

Segunda constatação. Devido a presença regular, difusa e capilar dos ditos opinativos, parece-me que não seria falso dizer que isto sinaliza que eles têm sido um modo de dizer que se apresenta como um impacto intenso na feitura de expressões, de pronunciamentos, de formulações, de comentários, de proferimentos e de posições assumidas por diferentes tipos de sujeitos em diversas situações e através de múltiplos suportes sociais. O conhecimento deste fato exige que estejamos alerta as coisas ditas que venhamos a escutar!

Terceira observação. Parece que o falante que se pronuncia sobre algo no mundo a partir do dizer opinativo tem um saber sobre este algo que se apresenta, para ele, como evidente em si mesmo, a ponto de não refletir ou questionar nem sobre o saber que supõe ter, nem sobre o modo opinativo de comunicá-lo. Tal atitude e procedimento sinalizariam que o dito e o dizer opinativo têm uma pretensão de verdade, ou seja, consideram-se como possuidores de um saber que são suficientes em si mesmos. O conhecimento deste fato exige que estejamos alerta a noção de verdade que justificam os ditos opinativos!

Desde a antiguidade, existe esta consciência reflexiva sobre os ditos opinativos. Por exemplo, os gregos inventaram três termos para designar o saber que temos sobre algo. Doxa (opinião), sofia (sabedoria) e episteme (conhecimento). A lembrar de certos escritos como o de Platão (428 ac. - 348 ac.), Francis Bacon (1561-1626), Gaston Bachelard (1884-1962) e Paulo Freire (1921-1997), por exemplo, nos deparamos com o fato de que todos eles, em tempos e lugares diferentes, em situações e domínios distintos, fizeram a crítica aos ditos, ao dizer e ao saber opinativo. Os diálogos de Platão, a exemplo do livro a República, testemunham o esforço do filósofo em refletir sobre uma determinada questão tendo em vista ascender ao mundo do espírito. Emblemático disto tem sido sua metáfora, intitulada de Alegoria da Caverna. Bacon em seu livro Novum Organum, discutiu o assunto, sugerindo a necessidade de superar o caráter opinativo que se tem sobre as coisas. São bem conhecidas suas críticas aos ídolos da tribo, da caverna, do foro e do teatro que bloqueariam a mente humana do acesso ao conhecimento. Bachelard também refletiu sobre o assunto no campo da filosofia da ciência em seu livro o A formação do espírito científico. Neste livro, encontram-se reflexões que aponta o entendimento de que a ciência avança a medida que opera rupturas no campo do saber, no sentido de distanciar-se da opinião e produzir conhecimento. Paulo Freire, em seu livro Educação como pratica da liberdade, chama atenção para o fato de que a opinião é um dos componentes constitutivos da consciência ingênua, nível de pensamento que a prática educativa problematizadora e libertadora, proposta por ele, pretendia superar.

Como se vê, a crítica secular contra os ditos e saberes opinativos indica que a opinião, ao ser empregada como um parâmetro orientador do pensamento, dos sentimentos e das ações, pode incorrer em erros, equívocos e danos ao conhecimento, às pessoas e às instituições. De modo que formar uma geração de cidadãos e de profissionais a partir da opinião seria prejudicial ao desenvolvimento da consciência crítica do indivíduo e da qualidade de vida de uma nação. 

Quem se consultaria com um médico que não soubesse diferenciar a doença da saúde e desconhecesse os procedimentos adequados à cura? Quem solicitaria o serviço de um engenheiro ou arquiteto para a construção de uma casa, de um edifício, de uma ponte ou de uma estrada, que desconhecesse os princípios básicos do planejamento e da execução destas obras? Quem matricularia seu filho em uma escola onde os professores se limitassem a dizer o que acham sobre as coisas, e que substituem o conhecimento produzido pela mera troca de opiniões entre os alunos? Quem atribuiria credibilidade ao ensino de um professor universitário que transferisse para o estudante a responsabilidade de transmitir o assunto que lhe compete ensinar? Que religioso se predispõe a ouvir um discurso carente de fundamentação teológica? Quem contrataria o serviço de um advogado que não sabe diferenciar o direito de privilégio? Quem assistiria a um programa de televisão onde o apresentador distorce os fatos, discrimina, desqualifica e dissimula em função da audiência ou de interesses ocultos? Quem votaria em um candidato que aspira a cargos públicos tendo em vista interesses estritamente pessoais e privados em detrimento dos fins coletivos e públicos? Quem aspira um governante que desconheça os fins sociais e os procedimentos adequados para a elaboração e efetividade das políticas públicas? Quem aceitaria, em sã consciência, uma fala que não contribui para um melhor entendimento das questões abordadas? Parece-me que somente aqueles que se deixam levar pelos ditos e saberes de natureza opinativa. 

Enfim, parece-me que a dominante cultural dos ditos e saberes opinativos em nossa história presente, forja sua aceitação e naturalização. De modo que, ela acabam por constituir uma subjetividade carregada de ingenuidade, de um saber frágil/confuso/restrito/mágico e de um modo indiferente do cidadão, do eleitor e dos governantes, dos profissionais, dos servidores e dos consumidores de se relacionarem com a coisa pública, com a vida e com o desenvolvimento do país.

Este acontecimento tem sido objeto de reflexão e estudo de várias áreas do conhecimento. Em todas, encontram-se fortes críticas ao caráter opinativo do saber e uma indicação razoável de que ele deve ser superado. Em função disto, emergem esperanças, utopias e projetos concretos de ação tendo em vista a constituição de sujeitos falantes e ouvintes, que possam transitar de uma cultura pautada nos ditos, nos dizeres e nos saberes opinativos para outra, alicerçada no saber elaborado. Numa sociedade do conhecimento!


João Pessoa, 01 de maio de 2014.

domingo, 23 de junho de 2013

DITOS RETÓRICOS - PARTE III



Por Erenildo João Carlos

O esforço reflexivo empreendido e os achados resultantes de nossa observação cotidiana e escavação de falas ouvidas em conversações diversas, exigem que ainda sejam assinalados alguns pontos, vistos como relevantes em nossa trajetória investigativa. Vejamos.

Primeiro ponto. Considerando que o dizer e os ditos retóricos são representantes de um modo de dizer centrado em fins, estrategicamente concretizados, pode-se afirmar, de certo modo, que eles não funcionam a partir de uma única regra ou um único jogo retórico. Ao contrario, incluem uma diversidade de alternativas possíveis, delineada a partir da natureza de diferentes fins. Graças à especificidade de cada fim, a regra ou o jogo retórico é instaurado. Caso, de fato, existisse uma única regra ou um único jogo que definisse o funcionamento do dizer retórico, poderíamos considerar que esse parâmetro seria a adequação eficiente entre os meios selecionados e os tipos/gêneros de fins desejados.

Segundo ponto. Considerando que a premissa da centralidade do dizer retórico é fundamentada no fato de que as regras e os jogos instaurados obedecem a fins estabelecidos, torna-se evidente que o conjunto de elementos retóricos mobilizados, objetiva, em ultima instância, produzir o convencimento nos participantes da conversação sobre alguma coisa. No transcorrer da conversação, o dizer retórico opera uma espécie de apropriação dos outros ditos (sinceros, verdadeiros, obrigatórios, morais, religiosos, políticos, educativos, estéticos, éticos etc.) em função de seus interesses. A apropriação ocorre por meio de uma prática de conversão efetivada através de estratégias de perversão, de inversão e de divergência do conteúdo enunciativo, constitutivo dos outros modos de dizer. Nesse processo, o conteúdo selecionado dos referidos ditos são fracionados, desconectados, resignificados, desconstruídos, desqualificados, elididos, negados, evidenciados, correlacionados, exaltados, aproveitados ou não, em função das peculiaridades dos fins retóricos almejados. Ao operar a conversão, o dizer retórico acaba por produzir efeitos de verdade e de sentido, sintetizados nos ditos retóricos, que deverão, por sua vez, serem acolhidos e aceitos como legítimos pelos participantes da conversação, serem interiorizados e utilizados como parâmetro orientador da concepção de mundo, da fala e da ação em situações concretas, vividas pelo falante.

Terceiro ponto. Considerando que os dizeres e os ditos retóricos intencionam realizar seus fins estrategicamente, devemos considerá-los, por natureza, como produtivos. A produtividade dos meios se encontra, precisamente, em sua utilidade. Ou seja, se os fins estabelecidos forem alcançados, os meios adotados cumprem sua função. Portanto, para serem produtivos, exige-se que o dizer e os ditos retóricos sejam competentes suficientemente para acionar, selecionar, mobilizar, organizar e operar os saberes existentes e necessários, para pôr em funcionamento as regras e realizar o jogo em questão da melhor forma possível, para desconstruir, reconstruir e criar, se for o caso, novas regras e jogos, apropriados à efetivação do fim estabelecido. Quando o dizer e o dito não produzem esses efeitos, deixam de ser úteis. Ao perder sua utilidade, tornam-se improdutivos e, consequentemente, descartáveis. O abandono dos dizeres e dos ditos improdutivos faz com que o fluxo da produção de novos dizeres e ditos seja uma constante da prática retórica. Além do abandono, há, no fluxo do devir retórico, a substituição e o aparecimento de novos dizeres e ditos. Nesse sentido, nota-se que é próprio do dizer e dos ditos retóricos serem, necessariamente, criativos, produtivos e competentes. O circuito de emergência, arrefecimento e extinção dos meios retóricos é uma característica da ordem estratégica do dizer e dos ditos retóricos, representante do seu modo de funcionamento e integrante das condições de possibilidade de sua existência enquanto tal.

Quarto ponto. Considerando que o dizer retórico, fundado na relação estratégica entre meio e fim, instaura a existência de um modo de ser particular no campo da linguagem, em geral, e da fala, em particular, ontologicamente assinalada por uma racionalidade instrumental, torna-se evidente a presença de um modo de existir da razão: de uma razão que ordena, classifica, articula, mobiliza, identifica e combina o conteúdo das coisas que se diz sobre algo para alguém, tendo em vista fins desejados. Com efeito, os ditos retóricos são racionais e estratégicos, são exemplos singulares de um modo de ser da razão marcado pelo crivo da estratégia, do uso instrumental da própria razão - razão-instrumento -, que fixa fins e busca realizá-lo da melhor maneira possível. Por isso que o conjunto das coisas ditas, retoricamente falando, objetiva sempre um fim determinado. De certo modo, esse modo de ser possibilita que o dizer e os ditos retóricos estejam livres do comprometimento com um conteúdo vinculado a questão da verdade, da sinceridade, do consenso, da moral, do sagrado, da ética e das responsabilidades políticas, a exemplo dos outros dizeres e ditos já mencionados e tratados nesse blog.

Quinto ponto. Considerando a linguagem como um complexo social amplo e particular, pode-se dizer, comparativamente, que assim como a literatura é a forma de existência mais rica de possibilidades da linguagem que se afirma enquanto linguagem, o dizer e os ditos retóricos representam um território da linguagem que expressam as formas mais ricas do discurso, enquanto enunciado. Em outras palavras, se de um lado, pode-se afirmar que a literatura é o modo de existência mais desenvolvido da natureza sígnica da linguagem; de forma similar, pode-se entender que os ditos e o dizer retórico são artefatos culturais da fala que evidenciam o caráter enunciativo do discurso. Sendo, por isso mesmo, os representantes mais desenvolvidos do discurso, enquanto prática efetivada. A retórica é, nesse sentido, uma ferramenta que racionaliza, de forma exemplar, as melhores alternativas para atingir os fins estabelecidos pelo falante em uma dada conversação, vivida e experimentada na imediaticidade do mundo cotidiano.

Sexto ponto. Considerando que o dizer e os ditos retóricos representam um modo estratégico e especifico de se ocupar com a questão do convencimento, pode-se dizer que eles têm assento difuso, ramificado e proliferado em diversos lugares da sociedade, haja vista serem diretamente afeitos a práticas sociais e culturais com função similar, a exemplo das práticas ideológicas desenvolvidas, por exemplo, no âmbito familiar, escolar, religioso, moral, político, jurídico e midiático. Nesse sentido, não devemos nos surpreender se reconhecermos em nós e nos outros, com quem convivemos, o uso intencional ou inconsciente do dizer e dos ditos retóricos. 

Sétimo ponto. Com efeito, nossa reflexão arqueológica aponta, dentre outras conclusões, para o fato de que (a) o dizer e os ditos retóricos têm uma existência objetiva no mundo existencial dos falantes e de que eles são, indiscutivelmente, artefatos da cultura oral, entranhados no seio das práticas sociais; (b) de que funcionam como uma espécie de marco regulatório de pronunciamentos de diferentes falantes concretos, situados em diversos lugares da vida social contemporânea; (c) de que, por fim, precisamos conhecer o modo como funcionam a fim de compreender e explicitar a maneira como interditam, produzem resistências e desviam a realização de um exercício oral efetivo, assentado no horizonte de uma ética do dizer! 


João Pessoa, 25 de junho de 2013.



domingo, 16 de junho de 2013

DITOS RETÓRICOS - PARTE II



Por Erenildo João Carlos

Antes de continuarmos nossa trajetória de escavar as camadas do dizer e dos ditos retóricos, tendo em vista conferir visibilidade às especificidades do modo como existem, parece-me necessário nos atermos um pouco em torno de um aspecto, associado ao significado dos termos ‘fins e meios’, assinalado no conjunto de nossa reflexão. Essa parada é importante para que possamos diferenciar e, portanto, não confundir, o modo singular como ‘os fins estrategicamente almejados’ aparecem no âmbito da linguagem, mais especificamente, no dizer retórico, com o modo de sua presença em outros lugares do saber, a exemplo dos que se ocupam em conversar sobre a natureza/vida e a sociedade/razão, em geral.

Em primeiro lugar, ao deslocar nossa atenção para a dinâmica da natureza, podemos notar que a fixação de fins e meios adequados e o estabelecimento de relações apropriadas entre eles são acontecimentos da ordem da vida. Em outras palavras, os seres vivos em geral são levados a realizarem fins e a buscarem meios que possibilitem sua sobrevivência. Manter-se vivo, nesse sentido, é uma questão ontológica, isto é, relaciona-se diretamente a existência da vida do próprio ser. Sem vida o ser não existe!

Nesse processo dinâmico e complexo, articulado e combinado pelas determinações naturais e seus acasos, os seres vivos lutam para viver e perpetuar suas espécies: procuram alimentos e lugares seguros; acasalam, cuidam de si, da prole e do grupo, aprendem e transmitem seus modos de lutar pela sobrevivência, sempre em situações imediatas e concretas. Nesse ínterim, cada uma dessas atividades é desenvolvida e aperfeiçoada pelo crivo da observação de acontecimentos, da imitação de comportamentos e do ensaio e erro de ações e procedimentos, vividos em diversas circunstâncias, acasos e climas; experimentadas em diferentes lugares e relações, que se estabelecem com os outros seres vivos, pela via das peculiaridades do corpo que possuem, dos instintos e das habilidades aprendidas, acumuladas por cada indivíduo singular e geração da espécie.

É precisamente no acervo proporcionado pelas circunstâncias imediatas da vida (guardada em forma de instinto e habilidades) que o indivíduo e o grupo de seres vivos escolhem os meios mais adequados para atenderem suas necessidades e atingirem o fim supremo da sobrevivência. As alternativas inadequadas colocam um risco permanente a existência dos seres vivos. Risco que podem resultar em perdas de diferentes tipos: do alimento, que resulta em fome; do ferimento, que resulta em sofrimento; do território, que resulta em insegurança; da vida, que resulta em morte. 

Observa-se, portanto, na natureza, que a complexidade da consciência e do estabelecimento (separado ou articulado) da ligação entre fins e meios se relaciona diretamente ao atendimento das necessidades impostas pela própria natureza, que exige a reprodução da espécie e sua adaptação ao meio. Do grau de consciência desse fato depende a sobrevivência do ser vivo. Quanto mais desenvolvida sua consciência, mais adaptado o ser vivo será a seu habitat. Sobreviver, nesse sentido, é uma questão de adaptação, isto é, de ajustamento adequado entre fins e meios.

Em segundo lugar, ao focalizar nossa atenção no campo da sociedade, verificamos o aparecimento de outras necessidades, que não têm o mesmo caráter natural da vida em geral, mas que também ganham um sentido necessário e um conteúdo de objetividade, em função da existência de sua conexão ontológica com a cultura da qual faz parte. Não obstante tal constatação, o que desejamos assinalar é o fato de que na sociedade, a articulação entre fins e meios aparece de uma maneira peculiar ao modo humano de ser: a articulação entre esses dois termos adquire as cores da razão. 

São inúmeras as implicações da peculiaridade desse modo de ser racional da consciência humana no que diz respeito à relação entre fins e meios. Para os propósitos de nossa reflexão, chamamos a atenção tão somente para quatro aspectos da razão, a saber: a antecipação intencional da ligação, a seleção de alternativas existentes no campo do saber, a combinação imaginária de novas articulações e a produção criativa de novos meios.

a) A antecipação intencional de fins, meios e de suas ligações. O componente humano da razão permite que qualquer indivíduo - situado em qualquer tempo e lugar da história, cuja razão se faça presente – possa ir além da fixação de fins e da escolha de meios adequados para alcançá-los. Ou seja, o ser humano, diferentemente dos outros seres vivos, pode antecipar a um só tempo os três termos da questão, antes mesmo de se efetivar a ação concreta que visa realizar os fins objetivados. O ser humano é capaz de planejar o futuro, elaborar planos para o amanhã.

b) A seleção de alternativas existentes no campo do saber. A antecipação intencional do par fim-meio e da ligação adequada entre os dois termos objetiva o exercício de escolha das melhores alternativas possíveis. O que somente pode ser levado a cabo efetivamente, quando se acessa a memória, registro do saber acumulado sobre o que se almeja. Em outras palavras, a razão, ao antecipar os três termos, mobiliza e articula o passado e o presente. Ao fazer isso, ela não se limita ao exercício da pura reflexão e da observação sistemática desinteressada do mundo concreto e imediato. Ao contrário, ela aciona a um só tempo os sabres prévios disponíveis sobre a questão e, no exato momento do desenvolvimento histórico e social, no qual se insere o indivíduo e a sociedade, escolhe as melhores alternativas. É no arquivo do saber que se encontra o acúmulo de informações sobre a articulação meio-fim.

c) A combinação imaginária de novas articulações. O exercício antecipado da escolha de fins e meios, das articulações mais adequadas entre um e outro, potencializada seja pela consciência do presente e do passado, não pode, entretanto, ser confundido com o movimento do real, haja vista ele ainda não ter acontecido na imediaticidade do mundo presente e passado. Isso significa que a razão humana tem a capacidade de produzir uma representação imaginária do futuro, ou seja, uma espécie de um mundo fora da história, um mundo ‘que pode ser, ou vir a ser’. Em função do ‘faz de conta que esse mundo exista’, a razão gera novas articulações entre os termos, que podem ou não acontecer como foi previsto, quando executadas no cotidiano, nas situações concretas da vida social. Portanto, no mundo imaginário da razão, que antecipa os acontecimentos, ocorre o exercício da produção de novas articulações entre fins e meios, cuja pertinência somente poderá ser reconhecida como válida e apropriada após sua confirmação no mundo real.

d) A produção criativa de novos meios. Em face da fixação de fins necessários naturalmente ou socialmente postos, o ser humano busca racionalmente realizá-los. Nesse processo racional, de antecipação de fins, de meios e de novas articulações, os indivíduos singulares, os grupos sociais e as formações sociais visitam o acervo existente, a memória guardada e o saber prévio acumulado tendo em vista atender suas necessidades naturais e sociais. Ao se deparar com o conhecimento da inexistência de alternativas adequadas, o ser humano entra em uma empreitada diferente, da adaptação, próprias dos seres vivos em geral, e da busca da escolha mais adequada entre fins e meio, presentes no universo do saber existente. Sua trajetória passa a ser pautada em função da produção criativa de meios ainda não disponíveis no acervo. Nesse processo ele observa, ensaia, simula, experimenta, produz novos meios. Essas ações e procedimentos almejam produzir instrumentos e tecnologias que viabilizem efetivamente a realização dos fins desejados, sejam eles necessários à sobrevivência do gênero humano, enquanto ser vivo; sejam eles necessários à cultural socialmente posta. É sabido que esse atributo da razão fez com que pudéssemos produzir diversas invenções, a exemplo do fogo, do vestuário, da flecha, das armas, da caça, do arado, da agricultura, dos utensílios domésticos, da moradia, da escrita, da imprensa, das estradas, do avião, da televisão, do cinema, do vídeo, do computador, do foguete, do satélite, das artes, das filosofias, das religiões, das ciências e de tantos outros instrumentos, ferramentas, tecnologias e práticas que serviam de meios para atingir os fins de sobrevivência e de construção de uma vida melhor, assim como, contraditoriamente, de negação da própria vida, de domínio, exploração ou destruição da natureza e de um ser humano sobre o outro.

Em terceiro lugar, não obstante o uso corrente dos termos ‘fins e meios’ circular e definir modos de significar, enunciar e de abordar o assunto em vários campos de saberes, em se tratando do dizer e dos ditos retóricos, a escavação que empreendemos, no âmbito da fala, aponta uma relação específica entre os dois termos. Neles, o caráter estratégico, seria o critério central, o núcleo de articulação entre fins e meios. É, precisamente, esse modo de existência dos ‘fins e dos meios’, que caracteriza o dizer e os ditos retóricos que estamos tratando, aqui. Nosso intuito, portanto, é o de problematizá-lo. O caráter estratégico é um componente da relação entre os dois termos que a razão opera, constrói e produz, de forma primorosa no âmbito da fala e das relações intersubjetivas socialmente construídas entre diversos falantes em situações determinadas!

Como vimos na Parte I de nossa reflexão e veremos na III, o sentido que impregna e forja a semântica dos termos ‘fins e meios’ usados no dizer e nos ditos retóricos não é o mesmo do sentido empregado correntemente quando se fala a respeito, por exemplo, de fins e meios, estrategicamente fixados, em função do atendimento de necessidades naturais dos seres vivos, em geral, ou existenciais, dos seres humanos, em particular.

João Pessoa, 16 de junho de 2013.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

DITOS RETÓRICOS - PARTE I




Por Erenildo João Carlos



É muito comum ouvirmos um tipo de fala que gera em nós, efeitos de desconfiança acerca da sinceridade ou da veracidade do que está sendo dito. 

Nesses casos, a impressão primeira que podemos ter é a de que o falante não está sendo sincero, de que ele não está dizendo a verdade, de que ele está escondendo algo relevante, de que ele está bajulando ou sendo irônico.

Falas desse tipo, carregadas de pontos que dissimulam, escondem, falsificam, adulteram e destorcem, acabam por impedir a realização de uma conversação edificante e inteligível, fazendo, assim, com que o que está sendo dito não seja considerado como uma fonte de saber e de conhecimento que poderia propiciar a elaboração de reflexões, noções, conclusões e considerações aproximadas a respeito da realidade dos fatos, ou do significado e do sentido subjetivo do falante.

Falas desse tipo desrespeitam o ouvinte, instaurando, desde o início, a incerteza, a desconfiança e, portanto, a impossibilidade do exercício de um diálogo sincero e edificante. Falas e proferimentos dessa natureza ferem, profundamente, a ética do dizer. 

Nesse texto, pretendo refletir sobre um gênero do dizer que, devido suas peculiaridades, pode alimentar a desconfiança intersubjetiva, presente nas conversações e formulações proferidas no cotidiano. Refiro-me, aqui, aos ditos retóricos. 

Ao percorrermos o curso de uma fala dissimulada, ou puxarmos os fios que tecem a ordem argumentativa que forja o jogo de ausência e de presença, de esconde-esconde da fala e das sombras e luzes do dizer, deixa um rastro de evidências que nos permite identificar o traço fundamental do modo de existência do dizer e dos ditos retóricos, a saber: o nexo profundo entre estratégia e finalidade. 

Em função desse reconhecimento, pode-se notar que a dissimulação não somente esconde a si mesma, enquanto estratégia, mas também os motivos pelos quais ela existe, ou seja, seus fins. 

Por essas razões, pode-se dizer que o falante dissimulado autêntico seja aquele que emprega conscientemente a dissimulação como estratégia para alcançar os fins que lhe interessa. No conjunto de uma fala como essa, a dissimulação aparece justificada pelos fins estabelecidos. 

Temos, aqui, portanto, o critério fundamental do dizer e dos ditos retóricos, qual seja, a fixação de fins que deverá ser atingido, independente dos meios e estratégias empregados, a exemplo da fala dissimulada, tão presente nas conversações do cotidiano. 

Fica posto, que o critério fundamental, constitutivo do dizer e dos ditos retóricos é a formulação de fins que deverão ser alcançados estrategicamente. 

Com efeito, esse modo de operar com a finalidade e a estratégia no âmbito da fala, expressa uma racionalidade totalmente descomprometida e sem responsabilidade com a ética do dizer, afeitos aos ditos, por exemplo, sinceros, verdadeiros e obrigatórios. Por isso que o dizer e os ditos retóricos, em sua versão dissimulada, desrespeita o ouvinte e gera um estado de insegurança e incerteza comunicativa. 

Assim sendo, pode-se dizer que o conjunto de argumentos, de enunciados, de significados, de sentidos, de valores e de assertivas acionado e mobilizado pelo dizer retórico objetiva convencer, converter, manipular, doutrinar, ensinar e anunciar coisas, tendo em vista a realização do fim desejado. 

O que é proferido, portanto, pelo falante retórico obedece a regra do jogo próprio da retórica, cujo traço dialético fundamental é o de a um só tempo negar qualquer regra e jogo que não potencialize a realização dos fins estabelecidos e afirmar todas as regras e jogos que possam beneficiar os referidos fins.

Na fala retórica os fins fixados determinam o que deverá ser dito; justificam a aceitação e utilização de um jogo ou regra determinada, selecionam o que é apropriado e adequado aos fins. 

Em última instância, o que põe as coisas ditas para funcionar, o que organiza e estrutura o dizer retórico é a natureza e a especificidade do conteúdo dos fins estabelecidos. São eles que deverão ser realizados, concretizados e efetivados estrategicamente. Em suma, no dizer retórico 'os fins justificam os meios'.

João Pessoa, 30 de maio de 2013.






sábado, 6 de abril de 2013

DITOS OBRIGATÓRIOS - PARTE II


Por Erenildo J. C. 

Sobre a problemática do dizer, tenho afirmado, a partir das observações e da ordem de argumentação empreendida, até então, que a fala e o dizer, possibilitadores da emergência, da circulação e do acontecimento efetivo dos ditos no âmbito da linguagem e da experiência comunicativa, produzem, dentre outros, o aparecimento de uma espécie de dito, nomeados, aqui, de ‘ditos obrigatórios’, que a um só tempo aciona e se constitui em função de uma série de valores reconhecidos, assegurados e válidos intersubjetivamente. 

Parece que, a primeira vista, ‘os ditos obrigatórios’, ao serem pronunciados durante uma conversação, evidenciam o exercício arbitrário do poder (posição social, autoridade, carisma e convencimento, por exemplo) de um falante sobre o ouvinte, de alguém sobre outrem, que, ao dizer algo, diz na perspectiva de subjulgar e governar, de constituir modos de ser, de viver, de sentir, de pensar e de falar. Nesse caso, os ‘ditos obrigatórios seriam a evidência de um tipo de experiência comunicativa, pautada na negação da alteridade, do respeito ao outro. 

Mesmo que isso seja, de um certo modo, um fato verificável em várias falas cotidianas, quando deslocamos nossa atenção para a composição da singularidade do modo de ser dos ‘ditos obrigatórios’, procurando conhecer e explicitar o que eles têm de peculiar no conteúdo de sua obrigatoriedade, deparamo-nos com um conjunto de principios, procedimentos e regras de conduta, representativos de necessidades existências e concretas, sentidas por certos indivíduos, agrupamentos humanos, cidadãos, organizações societárias, instituições, Estados e Nações. 

Nesse sentido, a observação cotidiana da experiência comunicativa nos permite identificar, pelo menos, quatro situações que indicam o chão existencial, cultural e histórico do aparecimento dos ‘ditos obrigatórios’: a) A vivência, que propicia o saber de experiência, que registra o acúmulo das alternativas mais adequadas à resolução dos problemas cotidianos e existenciais; B) A tradição, que conserva os preceitos, consagrados como certo e aceito, em formas de saberes, de práticas, de músicas, lendas, mitos, provérbios, danças, imagens, ritos, de cerimônias e de costumes específicos; C) As descobetas da ciência, geradores de diversos conhecimentos sobre diferentes esperas da natureza e da cultura e de orientação das ações e dos procedimentos mais corretos e verdadeiros a serem adotados em determinadas circunstâncias; D) As normas escritas, que prescrevem o padrão de consciência, de conduta e de relações permitidos em determinada formação social. Essas quarto situações concretas funcionam como condições de existência das necessidades, que integram a constituição da singularidade da obrigatoriedade dos ‘ditos obrigatórios’. 

O que essas necessidades apontam? Que os ‘ditos obrigatórios’ podem ser a expressão de um consenso firmado em torno de valores necessários, por isso mesmo, compartilhados e assumidos coletivamente. Em outras palavras, o reconhecimento e a garantia de algo visto como necessário, conferi ao reconhecimento dessa necessidade um estatuto de valor, assegurando seu ‘status’, na ordem do pensar, do fazer, do dizer e do vivier, como estratégias e parâmetros de convivência e sociabilidade. Os valores que emerge a partir do que é necessário, são apresentados e vistos, postos e instituídos como parâmetros que orientam e organizam as ações e as relações concretas dos individuos e das instituições. Os ‘ditos obrigatórios’ são representações sociais, concretas da maneira de como se deve agir e proceder consigo mesmo, com os outros, com as coisas e com a natureza, em determinado contexto. 

Ora, se os ‘ditos obrigatórios’ trazem à luz o sentido social de certas obrigações registradas na fala, denunciando a arbitrariedade da imposição e da negação da alteridade, ou anunciando a presença do consenso, de valores compartilhados intersubjetivamente, não devemos, contudo, confundir o sentido social do dizer com a especificidade da existência do dizer no âmbito da linguagem, presentes nos ‘ditos obrigatórios’, a saber: o fato de que são proferimentos que ativam a memória dos ouvintes sobre aquelas ações, condutas, procedimentos, saberes e práticas, considerados necessários, adequados, certos, corretos, verdadeiros e/ou permitidos em situações particulares, vividas pelos falantes e ouvintes singulares, situados em tempos e lugares determinados. 

João Pessoa, 05 de abril de 2013.



domingo, 31 de março de 2013

DITOS OBRIGATÓRIOS - PARTE I


Por Erenildo J. C. 

Tenho escrito, nos textos desse blog, que podemos aprender sobre o dizer, ouvindo cuidadosamente os falantes, que se fazem presentes nas experiências cotidianas, e a nós mesmos, no momento da conversação. O fato é que, independente do falante, a fala, seja ela, a nossa ou a do outro, as coisas ditas ou o modo de dizê-las, sempre expressam a particularidade de uma ordem do dizer, possível de ser analisada, entendida e explicitada. 

Tendo em vista a continuidade de nossas escavações arqueológicas no solo da fala, observamos a presença de uma espécie de dito que, devido suas características, podemos nomeá-lo de dito obrigatório. Ao adentrar no cerne de sua natureza, notamos que a constituição de sua obrigatoriedade se encontra atrelada, em primero lugar, à realização de certas condutas, ações, procedimentos e regras considerados necessários a determinadas situações ou circunstancias. Em segundo lugar, referi-se ao que é valorado intersubjetivamente pelos individuos, integrantes de um determinado grupo. Em terceiro lugar, relaciona-se ao fato de que o que é valorizado e consensuado intersubjetivamente, é erigido como parâmetro orientador da ação e da conduta dos indivíduos concretos. 

Portanto, os ditos não adquirem o estatuto de obrigatoriedade pelo simples fato de serem pronunciados com um tom de ameaça ou de poder. Não adquirem essa qualidade por conta da posição ou da função de prestígio de alguém. Não se encontra na autoridade, na capacidade argumentativa ou carismática do falante. O que faz com que as coisas ditas sejam obrigatórias é, precisamente, seu reconhecimento intersubjetivo. Dai porque os indivíduos, revestidos de autoridade, ou assumindo determinadas posições e funções, socialmente relevantes, devam orientar e avaliar, ensinar e instruir, falar e dizer em função dos ditos obrigatórios. A fonte dos ditos obrigatórios se encontra no seio das relações intersubjetivas e dos consensos estabelecidos entre os indivíduos, imersos no cotidiano e no contexto da vida societária.


Entretanto, ressaltamos que os ditos obrigatórios não são necessariamente verdadeiros ou éticos, pelo simples fato de serem resultantes do consenso. Vale lembrar, que na história da humanidade o consenso existiu até mesmo para justificar a barbárie, a dominação, a exploração, a exclusão, a segregação, o sacrifício, a manipulação, o controle, o preconceito, o extermínio de milhares de pessoas, a destruição da natureza e a pilhagem e o roubo.


João Pessoa, 31 de março de 2013



domingo, 10 de fevereiro de 2013

DITOS VERDADEIROS


Por Erenildo J. C.


Sabe-se que a experiência de ‘dizer alguma coisa para alguém’, por mais simples que seja, produz o acontecimento de uma situação de comunicação que exige a presença de, pelo menos, quatro características: do falante (‘aquele que diz alguma coisa’ - emissor), do dito (‘as coisas ditas’ - mensagem), do algo (‘aquilo ou aquele sobre o qual falamos’ - referente) e do ouvinte (‘o alguém’ com o qual o falante se comunica - receptor). Com efeito, a situação de comunicação é uma experiência vivida, por cada um nós, falantes e ouvintes, no cenário da cultura da palavra. 

Uma reflexão possível de ser feita, quando nos ocupamos em investigar a problemática do dizer, consiste, precisamente, em pensarmos sobre a vinculação entre as ‘coisas ditas’ e ‘aquilo ou aquele sobre o qual se fala’, isto é, sobre a especificidade de um gênero de afirmação, cujo conteúdo estabelece uma relação de correspondência entre ‘as coisas ditas’ e ‘a existência do que se diz’. Aqui, nomeados de ‘ditos verdadeiros’. Nesse ínterim reflexivo, emergem algumas perguntas, tais como: o que são ‘ditos verdadeiros’? Quais são as características constituíntes da singularidade que definem os ‘ditos verdadeiros’? Qual a relevância e as implicações sociais e cotidianas de formulações e proferimentos dessa natureza? 

Pode-se dizer, resumidamente, que os ‘ditos verdadeiros’ são formulações com caráter de assertiva, isto é, de elaborações que integram uma espécie de afirmação que pretende dizer, de fato, alguma coisa sobre algo. No caso, duas condições são imprescindíveis para a formulação de uma assertiva: primeiro que ‘o algo’ sobre o qual se fala, de fato, exista, seja no mundo da imaginação, da natureza ou da cultura. Segundo, que a formulação produzida sobre ‘o algo’ falado, isto é, ‘o dito’, de fato possa comunicar ‘alguma coisa’ sobre ele. Nesse sentido, quando ouvimos um falante ‘dizer alguma coisa sobre algo’, temos uma ideia, uma representação elaborada da coisa falada. Isto porque, nas ‘coisas ditas’ pelo falante se encontra uma série de aspectos, processos, relações, dimensões, traços, acontecimentos e modos de funcionamento que se fazem presentes efetivamente na existência concreta da coisa sobre a qual ele fala. Por isso, o entendimento de que a correspondência entre aquilo que se diz e aquilo que existe seja o critério de confiabilidade sobre as ‘coisas ditas’. No caso da situação de comunicação em questão, o critério da confiabilidade não tem sua origem e natureza no indivíduo falante, nem como centro a sua subjetividade. Com efeito, nessa relação específica de comunicação, o ouvinte avalia a veracidade das afirmações proferidas, a partir da correspondência entre aquilo que o falante diz e aquilo que foi, é ou está sendo.

A partir da reflexão empreendida sobre ‘ditos verdadeiros’, cabe-me elaborar, pelo menos, três conclusões provisórias. Primeira:  considerando que os ‘ditos verdadeiros’ estão intrinsecamente ligados às noções de verdade e de realidade, a primeira conclusão que chego, aponta para o acolhimento e aceitação positiva da ideia de verdade e de realidade, enquanto conceitos reconhecidos como válidos, graças ao entendimento de que há, na assertiva, uma vinculação necessária entre as ‘coisas ditas’ e o que, de fato, existe. Diferentemente das noções que integram à ordem de funcionamento dos ‘ditos sinceros’, ligados à centralidade do que o falante considera legítimo e da posição social que ele ocupa, ‘os ditos verdadeiros’, por conta de sua constituição ontológica, não aciona, não mobiliza e não opera com noções, tais como: significado, sentido, convicção, crença, valor, ideologia, versão ou ponto de vista ligados subjetivamente ao falante. Até porque os ‘ditos verdadeiros’ se referem aos objetos sobre os quais os ditos aludem, a saber, sobre seu modo de ser singular e suas condições reais de existência. 

Segunda conclusão. Os ‘ditos verdadeiros’ pertencem ao universo de uma série de formulações que integram um modo específico de ‘dizer alguma coisa para alguém’, intrínseco à linguagem empregada pelas ciências, sejam elas exatas, da natureza, humanas, da saúde ou da informação. Os ‘ditos verdadeiros’, enquanto proferimentos produzidos a partir da perspectiva de uma afirmação com caráter de assertiva, identificam o modo, por excelência, do dizer científico. As ‘coisas ditas’ pelo falante pesquisador, sejam elas ditas no momento da revisão da literatura ou da análise dos dados, sejam elas ditas na fase da formulação dos resultados ou das conclusões, no curso de uma pesquisa científica, se não forem ditas, enquanto assertivas, perdem sua validade científica. Certamente, os ‘ditos verdadeiros’ se encontram situados no campo da circulação e da proliferação do conhecimento produzido e acumulado. 

Terceira conclusão: Os ‘ditos verdadeiros’ também são acontecimentos comunicativos ordinárias, isto é, se fazem presentes nas formulações do dia-a-dia produzidas por falantes em suas relações intersubjetivas, estabelecidas em tempos e lugares diversos da vida social. Nessas situações existenciais e sociais, eles, assim como os ‘ditos sinceros’, também podem ser (ou devem ser) erigidos como critérios de confiabilidade das ‘coisas ditas’. Ora, se vivemos experiências cotidianas de comunicação nas quais os falantes, por mais sinceros que sejam, dizem coisas que não existem, que não são ajuizadas pela realidade dos acontecimentos passados ou presentes, cujos fatos não conferem razoabilidade e inteligibilidade e que não corroboram e confirmam o conteúdo da mensagem proferida, é evidente que ‘as coisas ditas’ estarão fadadas ao descréditos, à dúvida, à desconfiança, à rejeição e, portanto, à refutação. 

Infere-se, portanto, desse exercício reflexivo e das conclusões aludidas, que a relevância da discussão sobre ‘os ditos verdadeiros’ é uma evidência observada, seja no contexto geral da sociedade do conhecimento, que assinala a necessidade de assertivas como fundamento do delineamento da produção das ciências e tecnologias, assim como das políticas de Estado e dos governos, das empresas e da sociedade civil organizada, seja na particularidade da vida cotidiana do indivíduo, que requer o parâmetro da assertiva como norte e sustentação da existência de saberes confiáveis e edificantes, capazes de orientar a escolha de alternativas, de decisões e de ações concretas, exequíveis e consequentes, tendo em vista o uso inteligente e econômico de seu tempo, esforço e recurso, a solução de seus problemas existenciais e sociais e a realização das metas e projetos de vida, que pretendem construir. 

João Pessoa, 10 de fevereiro de 2013. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

DITOS SINCEROS


Por Erenildo J. C.



O ato de ouvir e observar cuidadosamente o que os falantes dizem no cotidiano ou em situações especificas, como as que ocorrem durante um encontro familiar, uma reunião de trabalho, uma sessão clínica, um julgamento, uma aula, uma pregação religiosa, uma palestra, um debate politico ou uma divulgação de notícias pela mídia, permite identificar, em certos casos, que o falante não foi sincero sobre o que disse e que, por isso mesmo, acabamos não aceitando ou dando a devida atenção ao que ele disse.

Ora, se a todo momento nos deparamos com a situação de dizer ou ouvir alguém dizer alguma coisa sobre algo, como seria precária nossa relação intersubjetiva, nossa rede de relações sociais, se fossemos movidos pela dúvida permanente a respeito das coisas ditas e ouvidas? Se percebessemos uma constância na ausência (ou de indícios da ausência) de sinceridade dos falantes em relação ao que dizem? Certamente, seria extremamente desconfortável experimentar situações cotidianas ou especializadas de comunicação nas quais os falantes não fossem sinceros: o professor que ensinasse o que não sabe, o estudante que repetisse e copiasse o que não conhece, o pregador que anunciasse o que não crê e não aconteceu, o político que dissimulasse suas reais intenções e interesses, o advogado e a testemunha que mentissem para ganharem a causa em questão, o reporter ou comentarista que enviesasse a informação transmitida, o paciente que contasse o que não sente, os familiares que dissessem o que não ocorre.

A constatação desse acontecimento no mundo da fala, permite formular a premissa da necessidade de um modo diferente de dizer, que aqui denomino, de ‘ditos sinceros’, que deveriam ser inseridos, predominantemente, na ordem social das relações intersubjetivas, importantes para o conhecimento das pessoas com quem falamos e ouvimos, com quem conversamos e dialogamos, com quem convivemos e compartilhamos nossas histórias, os acontecimentos cotidianos, nosso mundo interior e perspectiva de vida!

Considerando o reconhecimento da especificidade e do modo de existência dos ‘ditos sinceros’, elaborei algumas conclusões gerais a partir deles: a) o dito sincero se caracteriza pela correspondência entre a afirmativa do sujeito falante e o conteúdo da sua subjetividade individual; b) existe um conjunto de coisas ditas, que não merece confiabilidade, por conta de que o sujeito falante não fala algo que de fato entenda, acredite, deseje, sinta, imagine ou faça; c) a sinceridade do falante, ao dizer algo, não confere às coisas que ele diz o estatuto de assertiva, isto é, afirmativa verdadeira; d) a sinceridade é um critério necessário à aceitabilidade das coisas ditas na cultura da palavra; e, por fim, e) os ditos sinceros são necessários para que sejam estabelecidas relações intersubjetivas saudáveis e edificantes.

Parece-me, que muito embora não haja uma relação direta entre os `ditos sinceros` e a produção da verdade, uma coisa é certa: eles indicam uma alternativa de dizer algo para alguém a partir do pressuposto de que o que estar sendo dito não tem a intencionalidade de enganar o outro, mas ao contrário, de compartilhar com ele um modo individual de pensar, sentir e viver. 


João Pessoa, 02 de fevereiro de 2013.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A CONSCIÊNCIA DA COMPLEXIDADE DO DIZER




Erenildo J. C.



Movidos pela necessidade de sobrevivência, pelo desejo de dizer algo,  pelos achados encontrados ou pelo  encantamento diante das coisas e dos outros, aprendemos a nos comunicar, isto é, a dizer algo sobre alguma coisa para alguém.
No curso de nossa história, inventamos formas diferentes de comunicação: os gestos, os gritos, as falas, os sinais, as imagens e as escritas são alguns exemplos. Aos poucos, durante um certo tempo, cada uma dessas produções foi sendo fixada, incorparada e transmitida de uma geração à outra, foram se tornando patrimônio cultural da humanidade e atributos do gênero humano.
No desenvolvimento histórico do ato de falar aprendemos que certas maneiras de dizer comunicam mais ou menos, melhor ou pior aquilo que se quer dizer. O acúmulo da experiência comunicativa permitiu subistituir um modo por outro, combiná-los e refiná-los. Nesse processo, o gesto e o grito foram sendo substituídos pela fala, que ganhou um lugar fundamental no contexto das relações sociais. Ontem e hoje, vários povos, etnias, raças e grupos sociais recorreram (e recorrem) a cultural oral, como meio de comunicação hegemônico. Antes da invenção da escrita, vivemos milhões de anos imersos no seio da cultura oral e gesticular. A história dos índios brasileiros é um exemplo do que estamos tratando!
A relevância do acontecimento da fala em nosso cultura, como uma maneira de dizer algo para alguém, fez dela não-somente um ato de aprendizagem necessário à mediação da sociabilidade dos indivíduos e grupos sociais, como também operou um deslocamento da preocupação da fala para o dizer: o que se diz, as maneiras de dizer, seus efeitos e seus modos de existência se tornaram objetos do conhecimento.
Esse fenômeno evidencia uma necessidade individual e social do aprofundamento da consciência sobre o dizer, sugerindo à formulação de perguntas do tipo: podemos ter consciência do que dizemos? Se podemos, quais são os tipos e níveis possíveis de consciência sobre o dizer? Quais são as estratégias de análise adequadas para atingirmos a consciência almejada sobre o tipo e o nível do dizer investigado?
Provocadas pelo acontecimento da fala e do dizer, as perguntas formuladas assinalam, de certo modo, a relevância da reflexão, do estudo, da pesquisa e do ensino sobre os dizeres, os ditos, seus efeitos e seus modos de existência que tem sido empreendido sobre a questão por diferentes ciências, áreas de conhecimento e práticas culturais: psicologia, sociologia, antropologia, história, filosofia, neurociência, semiótica, análise do discurso, religião, política, mídia, pedagogia, educação etc.
 O fato é que o par falar-dizer exige que tenhamos consciêcia de sua complexidade, suas múltiplas dimensões e implicações. Sobretudo, quando militamos e trabalhamos no sentido do desenvolvimento de uma consciência crítica e criativa capaz de empoderar o indivíduo e os sujeitos sociais a dizer o que pensa, sente e vive. Entretanto, a consciência que pretendemos ter, saber ou constituir está diretamente relacionada ao aspescto do dizer que elegemos como objeto de nossa preocupação, a exemplo da consciência enunciativa que desenvolvemos mediante a análise arqueológica do discurso acionado e articulado pelo falante que diz alguma coisa sobre algo para alguém.

João Pessoa, 27 de janeiro de 2013.




DITOS NÃO FEITOS




Erenildo J. C.

Provavelmente, você tenha ouvido a frase ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’. Hoje, ao ouvi-la, pus-me a pensar sobre seu significado. A primeira ideia que esse dito popular comunica consiste na possibilidade de alguém dizer alguma coisa que não faz.  A segunda ideia diz respeito à consciência que o falante tem da relevância do que diz. O que é evidenciada no conselho dirigido ao ouvinte no sentido de que ele oriente sua ação em conformidade com o que a mensagem anuncia. Por último, a frase sugere uma indisposição (ou impossibilidade) do falante fazer o que diz, mesmo reconhecendo sua importância.
O ato de dizer e não fazer ou de não fazer aquilo que se diz, mesmo tendo consciência de sua importância, identifica um evento muito comum em nossos dias e histórias. Talvez você ainda não tenha se apercebido desse fenômeno. Façamos um exercício de reconhecimento. Faça um esforço de se olhar no espelho de sua vida, relembre algumas de suas falas, algumas coisas que você tenha dito e não fizera. Agora, se distancie de você mesmo! Olhe no seu entorno, escute as pessoas ao seu redor, aquelas com quem você convive e observe quantos ‘ditos não feitos’ ocorreram.  Se distancie um pouco mais! Você gosta de poesia, de romance, de drama, de estória policial, enfim, de literatura? Observe sua mensagem, sua narrativa e verifique quantos ‘ditos não feitos’ elas registram. Você escuta música? Escolha as que você mais prefere ouvir. Ouça suas letras e melodias: quantos ‘ditos não feitos’ elam cantam. Tome um pouco mais de distância! Você assiste filme? Escolha, alguns de seu gosto e verifique quantos ‘ditos não feitos’ eles veiculam. Ora, se assim quiser, poderia continuar a adentrar na rede de diversas práticas culturais do nosso tempo presente e passado, tendo em vista identificar e constatar a presença de ‘ditos não feitos’.
A regularidade desse fenômeno singular em tempos, lugares distintos e diversos nos possibilita elaborar algumas ideias mais gerais, não apenas sobre sua existência, enquanto um acontecimento que marca as relações sociais e intersubjetivas, mas também sobre seu modo de ser. Primeiro: esse modo de ‘dizer o que não se pretende fazer’ pode ser nomeado como retórico: discurso retórico, fala retórica ou assertiva retórica. Vamos chamá-lo, aqui, de ‘ditos não feitos’. Segundo: a presença do fenômeno é intensa, ramificada. Ele perpassa classes, grupos, raças, etnias, religiões, partidos políticos, ONGs, movimentos sociais, empresas, instituições governamentais e a mídia.  Ele contamina e contagia nossa vivência pessoal e experiência social. Terceiro: a existência peculiar dos ‘ditos não feitos’ que trazem a consciência da relevância do que é dito e sua concomitante não efetividade, por parte do falante, evidencia a necessidade de que seja compreendido e explicado em seu modo particular de ser e funcionar. Quarto: parece que ‘os ditos não feitos’ se apresentam como uma espécie de acontecimento discursivo merecedor de nossa atenção reflexiva, corroborando a necessidade da formulação de perguntas como as seguintes: por que se diz o que não se faz? Por que não se faz aquilo que se insiste em dizer, ensinar e aconselhar? Por que denunciamos a impertinência de certas ações ao desencorajar que orientem suas ações e vidas a partir delas?
Uma coisa está posto: quem diz a frase ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’ embora seja contraditório, parece ser uma pessoa sincera e consciente do que diz. Então, por que ela não faz o que diz? Talvez porque não considera o que diz como necessário, possível ou desejável. E você, o que pensa sobre os ‘ditos não feitos’?

João Pessoa, 15 de janeiro de 2012.





quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

POR UMA ÉTICA DO DIZER





Por Erenildo J. C.

É senso comum, o saber de que vivemos imersos numa cultura oral, em que a fala se configura como um artefato necessário à sociabilidade dos indivíduos e grupos sociais. Antes da escrita, surgiu a fala. No território da civilização da palavra, dizer se tornou um dispositivo de comunicação imprescindível, que põe um indivíduo diante do outro, que expressa à consciência que se tem sobre algo, que confere visibilidade a intenções, desejos, interesses, sonhos, valores, convicções, saberes...
Nesse cenário, dizer é uma maneira de propagar, instituir e manter viva a memória dos acontecimentos, das histórias, das ideologias e das concepções de mundo, tidas como legítimas. Nesse sentido, o dizer, como dispositivo de comunicação, suscita, pelo menos, três ordens de questões sobre o assunto: a) o dito como expressão da consciência que se tem sobre algo; b) o dito como uma representação dos fatos existentes; e c) o dito como anuncio do que se fez, faz ou fará. Reflitamos!
Questão (a): ‘o dito como expressão da consciência que se tem sobre algo’. Entendemos, aqui, consciência como o conjunto de sensações, percepções, ideias, representações, sentimentos, saberes, convicções, valores, desejos, preferências, sonhos, metas e concepções. Quando a consciência que temos sobre algo não é dita, permanece no plano da consciência, invisível para o outro. Ao nos referirmos sobre ‘o dito como expressão da consciência que se tem sobre algo’ estamos falando sobre um gênero de consciência conhecida, pelo fato de ser comunicada. Nesse caso, o dito é considerado como uma via de conhecimento e de concretização da consciência, um modo de compartilhamento. Nesse dito, a consciência se expressa, se põe, se coloca, ganha existência para o outro.
Questão (b): ‘o dito como uma representação dos fatos existentes’. Compreendemos, aqui, os fatos existentes como tudo que existe na natureza e na sociedade. Quando as coisas ditas conseguem capturar os acontecimentos, os processos, as relações, os aspectos e as dimensões da realidade existente, sejam da natureza ou da sociedade, de modo que ao falar algo sobre eles, dizem algo que, de fato, nos ajuda a conhecê-los e entendê-los, estamos diante de um ‘dito como uma representação dos fatos existentes’. Nesse dito, o mundo é expresso, é posto, é colocado, ganha existência para os indivíduos, em geral.
Questão (c): ‘o dito como anuncio do que se fez, faz ou fará’. Concebemos, aqui, ações como atos concretos, intencionais ou não, efetivados por indivíduos, sujeitos ou instituições sociais determinados. Escrevemos o cotidiano com nossas ações, passadas e presentes, que, por sua vez, desencadeiam outras ações, que se entrelaçam e tecem a complexidade do mundo em que vivemos. Nosso mundo, nossa história, nossa cultura é feita, gerada, produzida, tecida de atos simples, singulares e concretos. Quando as coisas ditas registram as ações passadas, presentes ou futuras dos indivíduos, sujeitos ou instituições, conferindo-lhes visibilidade e tornando-as conhecidas, estamos diante de um ‘dito como anuncio do que se fez, faz ou fará’. Nesse dito, os atos configuram as falas. Os feitos são ditos, postos, colocados, ganham existência intersubjetiva.
Dizer, portanto, é uma ação que produz algo concomitantemente no campo da linguagem, do saber e da sociabilidade. Pensar os ditos, que circulam e se proliferam no cotidiano, exige uma reflexão sobre a necessidade de uma ética do dizer: que ao dizermos algo sobre alguma coisa para alguém, tenhamos a responsabilidade e o compromisso social de que nossos ditos sejam sinceros, verdadeiros e edificantes.

João Pessoa, 04 de janeiro de 2012.

BEBER, FUMAR E JOGAR!



Por Erenildo J. C.

Certo dia, em uma das inúmeras conversas que tenho com meus filhos, Lenildo e Lívia, surgiu uma pergunta: pai, por que você não bebe, não fuma e não joga? Confesso que fui pego de surpresa e fiquei sem saber o que dizer. Na ocasião, Lenildo tinha treze anos e Lívia, oito. Não respondi a indagação. Ademais, a dispersão e justaposição de outros assuntos, tratados naquele momento, sufocaram o diálogo e a reflexão proporcionada pela questão formulada. O tempo passou! De repente, nesses dias, sem mais sem menos, lembrei-me dela e resolvi respondê-la. Atualmente, Lenildo vai fazer quinze anos e Lívia, dez. Um ótimo momento para retomar e refletir sobre a questão.
Por que não bebo, não fumo e não jogo? Será que esse estilo de vida resulta de uma premissa moral, religiosa ou epistemológica? Resulta de uma educação familiar, religiosa e escolar que me proporcionou a possibilidade de ter um estilo de vida saudável? Li sobre o assunto e descobri que não vale apena beber, fumar e jogar? Enfim, qual é o fundamento dessa decisão?
Para entender minha posição é necessário voltar um pouco no tempo. Tomei essa decisão, por volta de 1975, no intercurso do fim de minha infância e prenúncio da adolescência. Mais ou menos a idade dos meus filhos, hoje. Diga-se de passagem, sábia decisão de uma criança que aprendeu, desde a infância, a pensar a partir de sua própria experiência! Assinalo experiência, porque as conclusões e a decisão que dela resultou, não foram baseadas em um juízo de valor moral, mas na observação e reflexão dos efeitos negativos desses artefatos no cotidiano das pessoas com quem convivia! Decisão difícil, sem dúvida, para uma criança submersa em um mundo que erigiu a bebida, o cigarro e o jogo como um artefato relevante de sua lógica cultural!
Vi e compreendi, quando criança, a presença social da bebida, do fumo e do jogo! Sua presença em tempos e lugares diversos: em casa, na igreja, no trabalho, nas festas, na rua… Meu pai e meus irmãos bebiam, fumavam e jogavam! Minha mãe, não! Vários amigos e colegas bebiam, fumavam e/ou jogavam! Inúmeros vizinhos bebiam, fumavam e/ou jogavam! Parte significativa do tempo e dos recursos dessas pessoas destinava-se ao usufruto desses bens culturais.
Vi que onde duas ou mais pessoas estavam reunidas, com o intuito de celebrar o nascimento de uma nova vida; de exaltar uma conquista, uma meta alcançada ou um sonho realizado; de comemorar um nascimento, um casamento, o natal ou o fim de ano; de se encontrar para trocar ideias, avaliar, planejar o futuro; ou, simplesmente, de jogar conversa fora, pelo simples prazer de se sentir bem com o outro; ali se faziam presentes à bebida, o fumo e o jogo!
Lembro que meu pai bebia dias seguidos! Bebia tanto que imaginava ver assombrações! Às vezes ele passava dias acamado! Em uma de suas crises pós-embriaguês, teve um sonho que o fez parar de beber. Sonhou com um lugar seco, árido, deserto. Por onde caminhava sem destino e sem sentido! Quanto mais andava, mais a paisagem desértica se consolidava. De repente, se deparou com uma arvore caída, seca! Ao se aproximar e olhar em seu interior viu um ramo de planta, verdinho, crescendo em meio à morbidez do toco seco e da aridez do ambiente! Impactado pelo que sonhou, acordou… suado, com o coração batendo! Parou e respirou fundo! Relembrando o sonho, refletiu sobre seu conteúdo e concluiu, comparativamente, que a sua vida era a paisagem árida, que ele era o tronco seco e que eu era a ramo verde, que despontava no seio do tronco seco, caído e evanescente. Após a reflexão decidiu não mais beber, pois, a partir de então, desejava cuidar e acompanhar o crescimento do ramo verde dos seus sonhos: eu. Nessa época, eu deveria ter uns seis anos. Não me lembro desse fato, ouvi meus pais contarem!
Meu pai parou de beber, mas não de fumar e de jogar! Morreu em 1978, época de copa do mundo, sem ter enriquecido com suas apostas na loteria, no jogo de bicho e na loto. Laudo médico: edema pulmonar. Minha mãe morreu em 2005, sem nunca ter fumado e bebido. Laudo médico: câncer no pulmão! Ela era fumante passiva! Aspirou, durante muitos anos, a fumaça dos tragos de cigarro do meu pai! Um dos preços da convivência com um fumante!
Quantos morrem de câncer e edema pulmonar gerado pelo cigarro? Quantos morrem de cirrose por conta de ter submetido seu fígado ao álcool durante muitos anos? Quantos lares são destruídos e casamentos são desfeitos por conta do uso de bebidas e outras drogas? Quantos acidentes de trânsito e violências domésticas são produzidos cotidianamente por conta do consumo da bebida? Quantos adolescentes e jovens morreram em festas, por conta de brigas geradas pelo consumo de álcool e outras drogas? Quantos sentiram a necessidade de substituírem a bebida e o cigarro por drogas mais fortes, gerando, assim, dependência química mais serias!
E o que dizer dos jogos de azares como forma de lazer, como esperança de uma nova vida e aposta de um futuro melhor; como artefato cultural de consumo e como estratégia de reprodução do capital! O jogo de azar, assim como a bebida e o fumo se ramificaram de tal forma que teceram uma rede cultural complexa a ponto de penetrarem e se instalarem nos lares, nas igrejas, no mundo do trabalho, no entretenimento, na subjetividade e na afetividade dos indivíduos singulares!
Essa atmosfera cultural se apresentava, desde a mais tenra idade, como modelo a ser seguido e aprendido ao longo da vida. Ela fazia do beber, do fumar e do jogar um exemplo a ser seguido. O adensamento dessa presença se fazia sentir no uso da bebida, da droga e do jogo não somente como fontes de prazer e de sociabilidade, mas também como estratégias de fuga da realidade. O interessante é que, quando muitos se sentem tristes, vazios, em crise, aperreados, por alguma razão, uma das possibilidades que vislumbram de enfrentamento da situação se expressa justamente na busca da bebida, do fumo e/ou do jogo como refúgio, conforto e solução do problema vivido!
Os efeitos desses artefatos adquiriram um novo status, uma nova função sociocultural, a de serem terapêuticos e redentores! Em outras palavras, parecem entidades divinas portadoras de uma espécie de poder capaz de proporcionar o divã, o nirvana, a libertação. Embriagados, contemplando a fumaça que esvanece no ar, sentido os efeitos neurais do álcool e da nicotina, encantados com os desafios, as expectativas de vitória e os simulacros das apostas, o consumidor fiel imagina que seus problemas desapareceram, foram resolvidos!
Hoje, tenho a impressão de que esses três artefatos culturais foram erigidos como uma espécie de símbolo da sociabilidade contemporânea! Capazes de mediarem às relações intersubjetivas entre os indivíduos singulares, os grupos e as classes sociais! Ícones transversais que perpassam vários lugares sociais, vários segmentos sociais e se instituem como parâmetros de uma­ moralidade que captura afetos, que estrutura valores, consolida interesses sociopolíticos e mercadológicos e institui práticas locais, nacionais e internacionais! O valor simbólico dessa tríade, associado ao prazer ou a dor consolida  mundialmente o fenômeno.
O cotidiano é testemunha de tudo isso! O ato de ver e de observar esses acontecimentos foi uma estratégia inconsciente utilizada para saber e decidir! Não li sobre o assunto, pois ainda não tinha despertado a curiosidade epistemológica para conhecê-lo, para saber sobre as histórias, os efeitos na saúde das pessoas, as implicações familiares e sociais dessa tríade cultural! O mundo da vida foi meu primeiro livro, minha fonte de conhecimento! Vi, antes de me interessar em ler! Decidi a partir do que vi!
Como fugir de seus enlaces, de suas amarras, se nos encontramos imersos nessa atmosfera cultural? Como não se deixar seduzir por seus cantos, encantos e promessas de autoafirmação, de reconhecimento, de realização pessoal e êxito social? Como escapar, renunciar, se esquivar do consumo, da tradição do álcool, do fumo e das apostas nos jogos de azar? Confesso que não sei! Cada caso é um caso! Parece-me que não há resposta única para perguntas tão complexas e diversas! Penso que cada um deve buscar a resposta mais adequada para cada caso que quiser conhecer, que desejar compreender e que aspirar descobrir alternativas de encaminhamento e enfrentamento.
Contento-me, aqui, por hora, em responder a pergunta formulada por meus filhos “pai, por que você não bebe, não fuma e não joga?”, com a seguinte afirmativa: quando criança, eu vi que não era bom, por isso decidi não fazer. Desde então, não bebo, não fumo e não jogo! Hoje, reconheço a sabedoria e a relevância dessa decisão e os efeitos positivos que ela gerou em minha vida!

João Pessoa, 29 dezembro de 2012.