terça-feira, 29 de janeiro de 2013

DITOS NÃO FEITOS




Erenildo J. C.

Provavelmente, você tenha ouvido a frase ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’. Hoje, ao ouvi-la, pus-me a pensar sobre seu significado. A primeira ideia que esse dito popular comunica consiste na possibilidade de alguém dizer alguma coisa que não faz.  A segunda ideia diz respeito à consciência que o falante tem da relevância do que diz. O que é evidenciada no conselho dirigido ao ouvinte no sentido de que ele oriente sua ação em conformidade com o que a mensagem anuncia. Por último, a frase sugere uma indisposição (ou impossibilidade) do falante fazer o que diz, mesmo reconhecendo sua importância.
O ato de dizer e não fazer ou de não fazer aquilo que se diz, mesmo tendo consciência de sua importância, identifica um evento muito comum em nossos dias e histórias. Talvez você ainda não tenha se apercebido desse fenômeno. Façamos um exercício de reconhecimento. Faça um esforço de se olhar no espelho de sua vida, relembre algumas de suas falas, algumas coisas que você tenha dito e não fizera. Agora, se distancie de você mesmo! Olhe no seu entorno, escute as pessoas ao seu redor, aquelas com quem você convive e observe quantos ‘ditos não feitos’ ocorreram.  Se distancie um pouco mais! Você gosta de poesia, de romance, de drama, de estória policial, enfim, de literatura? Observe sua mensagem, sua narrativa e verifique quantos ‘ditos não feitos’ elas registram. Você escuta música? Escolha as que você mais prefere ouvir. Ouça suas letras e melodias: quantos ‘ditos não feitos’ elam cantam. Tome um pouco mais de distância! Você assiste filme? Escolha, alguns de seu gosto e verifique quantos ‘ditos não feitos’ eles veiculam. Ora, se assim quiser, poderia continuar a adentrar na rede de diversas práticas culturais do nosso tempo presente e passado, tendo em vista identificar e constatar a presença de ‘ditos não feitos’.
A regularidade desse fenômeno singular em tempos, lugares distintos e diversos nos possibilita elaborar algumas ideias mais gerais, não apenas sobre sua existência, enquanto um acontecimento que marca as relações sociais e intersubjetivas, mas também sobre seu modo de ser. Primeiro: esse modo de ‘dizer o que não se pretende fazer’ pode ser nomeado como retórico: discurso retórico, fala retórica ou assertiva retórica. Vamos chamá-lo, aqui, de ‘ditos não feitos’. Segundo: a presença do fenômeno é intensa, ramificada. Ele perpassa classes, grupos, raças, etnias, religiões, partidos políticos, ONGs, movimentos sociais, empresas, instituições governamentais e a mídia.  Ele contamina e contagia nossa vivência pessoal e experiência social. Terceiro: a existência peculiar dos ‘ditos não feitos’ que trazem a consciência da relevância do que é dito e sua concomitante não efetividade, por parte do falante, evidencia a necessidade de que seja compreendido e explicado em seu modo particular de ser e funcionar. Quarto: parece que ‘os ditos não feitos’ se apresentam como uma espécie de acontecimento discursivo merecedor de nossa atenção reflexiva, corroborando a necessidade da formulação de perguntas como as seguintes: por que se diz o que não se faz? Por que não se faz aquilo que se insiste em dizer, ensinar e aconselhar? Por que denunciamos a impertinência de certas ações ao desencorajar que orientem suas ações e vidas a partir delas?
Uma coisa está posto: quem diz a frase ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’ embora seja contraditório, parece ser uma pessoa sincera e consciente do que diz. Então, por que ela não faz o que diz? Talvez porque não considera o que diz como necessário, possível ou desejável. E você, o que pensa sobre os ‘ditos não feitos’?

João Pessoa, 15 de janeiro de 2012.