Erenildo
J. C.
Provavelmente, você tenha
ouvido a frase ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’. Hoje, ao
ouvi-la, pus-me a pensar sobre seu significado. A primeira ideia que esse dito
popular comunica consiste na possibilidade de alguém dizer alguma coisa que não
faz. A segunda ideia diz respeito à consciência que o falante tem da
relevância do que diz. O que é evidenciada no conselho dirigido ao ouvinte no
sentido de que ele oriente sua ação em conformidade com o que a mensagem
anuncia. Por último, a frase sugere uma indisposição (ou impossibilidade) do
falante fazer o que diz, mesmo reconhecendo sua importância.
O ato de dizer e não fazer
ou de não fazer aquilo que se diz, mesmo tendo consciência de sua importância,
identifica um evento muito comum em nossos dias e histórias. Talvez você ainda
não tenha se apercebido desse fenômeno. Façamos um exercício de reconhecimento.
Faça um esforço de se olhar no espelho de sua vida, relembre algumas de suas
falas, algumas coisas que você tenha dito e não fizera. Agora, se distancie de
você mesmo! Olhe no seu entorno, escute as pessoas ao seu redor, aquelas com
quem você convive e observe quantos ‘ditos não feitos’ ocorreram. Se
distancie um pouco mais! Você gosta de poesia, de romance, de drama, de estória
policial, enfim, de literatura? Observe sua mensagem, sua narrativa e verifique
quantos ‘ditos não feitos’ elas registram. Você escuta música? Escolha as que
você mais prefere ouvir. Ouça suas letras e melodias: quantos ‘ditos não
feitos’ elam cantam. Tome um pouco mais de distância! Você assiste filme?
Escolha, alguns de seu gosto e verifique quantos ‘ditos não feitos’ eles
veiculam. Ora, se assim quiser, poderia continuar a adentrar na rede de
diversas práticas culturais do nosso tempo presente e passado, tendo em vista
identificar e constatar a presença de ‘ditos não feitos’.
A regularidade desse
fenômeno singular em tempos, lugares distintos e diversos nos possibilita
elaborar algumas ideias mais gerais, não apenas sobre sua existência, enquanto
um acontecimento que marca as relações sociais e intersubjetivas, mas também
sobre seu modo de ser. Primeiro: esse modo de ‘dizer o que não se pretende
fazer’ pode ser nomeado como retórico: discurso retórico, fala retórica ou
assertiva retórica. Vamos chamá-lo, aqui, de ‘ditos não feitos’. Segundo: a
presença do fenômeno é intensa, ramificada. Ele perpassa classes, grupos,
raças, etnias, religiões, partidos políticos, ONGs, movimentos sociais,
empresas, instituições governamentais e a mídia. Ele contamina e contagia
nossa vivência pessoal e experiência social. Terceiro: a existência peculiar
dos ‘ditos não feitos’ que trazem a consciência da relevância do que é dito e
sua concomitante não efetividade, por parte do falante, evidencia a necessidade
de que seja compreendido e explicado em seu modo particular de ser e funcionar.
Quarto: parece que ‘os ditos não feitos’ se apresentam como uma espécie de
acontecimento discursivo merecedor de nossa atenção reflexiva, corroborando a
necessidade da formulação de perguntas como as seguintes: por que se diz o que
não se faz? Por que não se faz aquilo que se insiste em dizer, ensinar e
aconselhar? Por que denunciamos a impertinência de certas ações ao desencorajar
que orientem suas ações e vidas a partir delas?
Uma coisa está posto: quem
diz a frase ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’ embora seja
contraditório, parece ser uma
pessoa sincera e consciente do que diz. Então, por que ela não faz o que diz?
Talvez porque não considera o que diz como necessário, possível ou desejável. E
você, o que pensa sobre os ‘ditos não feitos’?