Por Erenildo J. C.
É senso comum, o saber de
que vivemos imersos numa cultura oral, em que a fala se configura como um
artefato necessário à sociabilidade dos indivíduos e grupos sociais. Antes da
escrita, surgiu a fala. No território da civilização da palavra, dizer se
tornou um dispositivo de comunicação imprescindível, que põe um indivíduo
diante do outro, que expressa à consciência que se tem sobre algo, que confere
visibilidade a intenções, desejos, interesses, sonhos, valores, convicções,
saberes...
Nesse cenário, dizer é uma
maneira de propagar, instituir e manter viva a memória dos acontecimentos, das
histórias, das ideologias e das concepções de mundo, tidas como legítimas.
Nesse sentido, o dizer, como dispositivo de comunicação, suscita, pelo menos,
três ordens de questões sobre o assunto: a) o dito como expressão da
consciência que se tem sobre algo; b) o dito como uma representação dos fatos
existentes; e c) o dito como anuncio do que se fez, faz ou fará. Reflitamos!
Questão (a): ‘o dito como
expressão da consciência que se tem sobre algo’. Entendemos, aqui, consciência
como o conjunto de sensações, percepções, ideias, representações, sentimentos,
saberes, convicções, valores, desejos, preferências, sonhos, metas e concepções.
Quando a consciência que temos sobre algo não é dita, permanece no plano da
consciência, invisível para o outro. Ao nos referirmos sobre ‘o dito como
expressão da consciência que se tem sobre algo’ estamos falando sobre um gênero
de consciência conhecida, pelo fato de ser comunicada. Nesse caso, o dito é
considerado como uma via de conhecimento e de concretização da consciência, um
modo de compartilhamento. Nesse dito, a consciência se expressa, se põe, se
coloca, ganha existência para o outro.
Questão (b): ‘o dito como
uma representação dos fatos existentes’. Compreendemos, aqui, os fatos
existentes como tudo que existe na natureza e na sociedade. Quando as coisas
ditas conseguem capturar os acontecimentos, os processos, as relações, os
aspectos e as dimensões da realidade existente, sejam da natureza ou da
sociedade, de modo que ao falar algo sobre eles, dizem algo que, de fato, nos
ajuda a conhecê-los e entendê-los, estamos diante de um ‘dito como uma
representação dos fatos existentes’. Nesse dito, o mundo é expresso, é posto, é
colocado, ganha existência para os indivíduos, em geral.
Questão (c): ‘o dito como
anuncio do que se fez, faz ou fará’. Concebemos, aqui, ações como atos
concretos, intencionais ou não, efetivados por indivíduos, sujeitos ou
instituições sociais determinados. Escrevemos o cotidiano com nossas ações,
passadas e presentes, que, por sua vez, desencadeiam outras ações, que se
entrelaçam e tecem a complexidade do mundo em que vivemos. Nosso mundo, nossa
história, nossa cultura é feita, gerada, produzida, tecida de atos simples,
singulares e concretos. Quando as coisas ditas registram as ações passadas,
presentes ou futuras dos indivíduos, sujeitos ou instituições, conferindo-lhes
visibilidade e tornando-as conhecidas, estamos diante de um ‘dito como anuncio
do que se fez, faz ou fará’. Nesse dito, os atos configuram as falas. Os feitos
são ditos, postos, colocados, ganham existência intersubjetiva.
Dizer, portanto, é uma ação
que produz algo concomitantemente no campo da linguagem, do saber e da
sociabilidade. Pensar os ditos, que circulam e se proliferam no cotidiano,
exige uma reflexão sobre a necessidade de uma ética do dizer: que ao dizermos
algo sobre alguma coisa para alguém, tenhamos a responsabilidade e o
compromisso social de que nossos ditos sejam sinceros, verdadeiros e
edificantes.
João
Pessoa, 04 de janeiro de 2012.