Por Erenildo J. C.
O ato de ouvir e observar cuidadosamente o que os falantes dizem no cotidiano ou em situações especificas, como as que ocorrem durante um encontro familiar, uma reunião de trabalho, uma sessão clínica, um julgamento, uma aula, uma pregação religiosa, uma palestra, um debate politico ou uma divulgação de notícias pela mídia, permite identificar, em certos casos, que o falante não foi sincero sobre o que disse e que, por isso mesmo, acabamos não aceitando ou dando a devida atenção ao que ele disse.
Ora, se a todo momento nos deparamos com a situação de dizer ou ouvir alguém dizer alguma coisa sobre algo, como seria precária nossa relação intersubjetiva, nossa rede de relações sociais, se fossemos movidos pela dúvida permanente a respeito das coisas ditas e ouvidas? Se percebessemos uma constância na ausência (ou de indícios da ausência) de sinceridade dos falantes em relação ao que dizem? Certamente, seria extremamente desconfortável experimentar situações cotidianas ou especializadas de comunicação nas quais os falantes não fossem sinceros: o professor que ensinasse o que não sabe, o estudante que repetisse e copiasse o que não conhece, o pregador que anunciasse o que não crê e não aconteceu, o político que dissimulasse suas reais intenções e interesses, o advogado e a testemunha que mentissem para ganharem a causa em questão, o reporter ou comentarista que enviesasse a informação transmitida, o paciente que contasse o que não sente, os familiares que dissessem o que não ocorre.
A constatação desse acontecimento no mundo da fala, permite formular a premissa da necessidade de um modo diferente de dizer, que aqui denomino, de ‘ditos sinceros’, que deveriam ser inseridos, predominantemente, na ordem social das relações intersubjetivas, importantes para o conhecimento das pessoas com quem falamos e ouvimos, com quem conversamos e dialogamos, com quem convivemos e compartilhamos nossas histórias, os acontecimentos cotidianos, nosso mundo interior e perspectiva de vida!
Considerando o reconhecimento da especificidade e do modo de existência dos ‘ditos sinceros’, elaborei algumas conclusões gerais a partir deles: a) o dito sincero se caracteriza pela correspondência entre a afirmativa do sujeito falante e o conteúdo da sua subjetividade individual; b) existe um conjunto de coisas ditas, que não merece confiabilidade, por conta de que o sujeito falante não fala algo que de fato entenda, acredite, deseje, sinta, imagine ou faça; c) a sinceridade do falante, ao dizer algo, não confere às coisas que ele diz o estatuto de assertiva, isto é, afirmativa verdadeira; d) a sinceridade é um critério necessário à aceitabilidade das coisas ditas na cultura da palavra; e, por fim, e) os ditos sinceros são necessários para que sejam estabelecidas relações intersubjetivas saudáveis e edificantes.
Parece-me, que muito embora não haja uma relação direta entre os `ditos sinceros` e a produção da verdade, uma coisa é certa: eles indicam uma alternativa de dizer algo para alguém a partir do pressuposto de que o que estar sendo dito não tem a intencionalidade de enganar o outro, mas ao contrário, de compartilhar com ele um modo individual de pensar, sentir e viver.
João Pessoa, 02 de fevereiro de 2013.