domingo, 10 de fevereiro de 2013

DITOS VERDADEIROS


Por Erenildo J. C.


Sabe-se que a experiência de ‘dizer alguma coisa para alguém’, por mais simples que seja, produz o acontecimento de uma situação de comunicação que exige a presença de, pelo menos, quatro características: do falante (‘aquele que diz alguma coisa’ - emissor), do dito (‘as coisas ditas’ - mensagem), do algo (‘aquilo ou aquele sobre o qual falamos’ - referente) e do ouvinte (‘o alguém’ com o qual o falante se comunica - receptor). Com efeito, a situação de comunicação é uma experiência vivida, por cada um nós, falantes e ouvintes, no cenário da cultura da palavra. 

Uma reflexão possível de ser feita, quando nos ocupamos em investigar a problemática do dizer, consiste, precisamente, em pensarmos sobre a vinculação entre as ‘coisas ditas’ e ‘aquilo ou aquele sobre o qual se fala’, isto é, sobre a especificidade de um gênero de afirmação, cujo conteúdo estabelece uma relação de correspondência entre ‘as coisas ditas’ e ‘a existência do que se diz’. Aqui, nomeados de ‘ditos verdadeiros’. Nesse ínterim reflexivo, emergem algumas perguntas, tais como: o que são ‘ditos verdadeiros’? Quais são as características constituíntes da singularidade que definem os ‘ditos verdadeiros’? Qual a relevância e as implicações sociais e cotidianas de formulações e proferimentos dessa natureza? 

Pode-se dizer, resumidamente, que os ‘ditos verdadeiros’ são formulações com caráter de assertiva, isto é, de elaborações que integram uma espécie de afirmação que pretende dizer, de fato, alguma coisa sobre algo. No caso, duas condições são imprescindíveis para a formulação de uma assertiva: primeiro que ‘o algo’ sobre o qual se fala, de fato, exista, seja no mundo da imaginação, da natureza ou da cultura. Segundo, que a formulação produzida sobre ‘o algo’ falado, isto é, ‘o dito’, de fato possa comunicar ‘alguma coisa’ sobre ele. Nesse sentido, quando ouvimos um falante ‘dizer alguma coisa sobre algo’, temos uma ideia, uma representação elaborada da coisa falada. Isto porque, nas ‘coisas ditas’ pelo falante se encontra uma série de aspectos, processos, relações, dimensões, traços, acontecimentos e modos de funcionamento que se fazem presentes efetivamente na existência concreta da coisa sobre a qual ele fala. Por isso, o entendimento de que a correspondência entre aquilo que se diz e aquilo que existe seja o critério de confiabilidade sobre as ‘coisas ditas’. No caso da situação de comunicação em questão, o critério da confiabilidade não tem sua origem e natureza no indivíduo falante, nem como centro a sua subjetividade. Com efeito, nessa relação específica de comunicação, o ouvinte avalia a veracidade das afirmações proferidas, a partir da correspondência entre aquilo que o falante diz e aquilo que foi, é ou está sendo.

A partir da reflexão empreendida sobre ‘ditos verdadeiros’, cabe-me elaborar, pelo menos, três conclusões provisórias. Primeira:  considerando que os ‘ditos verdadeiros’ estão intrinsecamente ligados às noções de verdade e de realidade, a primeira conclusão que chego, aponta para o acolhimento e aceitação positiva da ideia de verdade e de realidade, enquanto conceitos reconhecidos como válidos, graças ao entendimento de que há, na assertiva, uma vinculação necessária entre as ‘coisas ditas’ e o que, de fato, existe. Diferentemente das noções que integram à ordem de funcionamento dos ‘ditos sinceros’, ligados à centralidade do que o falante considera legítimo e da posição social que ele ocupa, ‘os ditos verdadeiros’, por conta de sua constituição ontológica, não aciona, não mobiliza e não opera com noções, tais como: significado, sentido, convicção, crença, valor, ideologia, versão ou ponto de vista ligados subjetivamente ao falante. Até porque os ‘ditos verdadeiros’ se referem aos objetos sobre os quais os ditos aludem, a saber, sobre seu modo de ser singular e suas condições reais de existência. 

Segunda conclusão. Os ‘ditos verdadeiros’ pertencem ao universo de uma série de formulações que integram um modo específico de ‘dizer alguma coisa para alguém’, intrínseco à linguagem empregada pelas ciências, sejam elas exatas, da natureza, humanas, da saúde ou da informação. Os ‘ditos verdadeiros’, enquanto proferimentos produzidos a partir da perspectiva de uma afirmação com caráter de assertiva, identificam o modo, por excelência, do dizer científico. As ‘coisas ditas’ pelo falante pesquisador, sejam elas ditas no momento da revisão da literatura ou da análise dos dados, sejam elas ditas na fase da formulação dos resultados ou das conclusões, no curso de uma pesquisa científica, se não forem ditas, enquanto assertivas, perdem sua validade científica. Certamente, os ‘ditos verdadeiros’ se encontram situados no campo da circulação e da proliferação do conhecimento produzido e acumulado. 

Terceira conclusão: Os ‘ditos verdadeiros’ também são acontecimentos comunicativos ordinárias, isto é, se fazem presentes nas formulações do dia-a-dia produzidas por falantes em suas relações intersubjetivas, estabelecidas em tempos e lugares diversos da vida social. Nessas situações existenciais e sociais, eles, assim como os ‘ditos sinceros’, também podem ser (ou devem ser) erigidos como critérios de confiabilidade das ‘coisas ditas’. Ora, se vivemos experiências cotidianas de comunicação nas quais os falantes, por mais sinceros que sejam, dizem coisas que não existem, que não são ajuizadas pela realidade dos acontecimentos passados ou presentes, cujos fatos não conferem razoabilidade e inteligibilidade e que não corroboram e confirmam o conteúdo da mensagem proferida, é evidente que ‘as coisas ditas’ estarão fadadas ao descréditos, à dúvida, à desconfiança, à rejeição e, portanto, à refutação. 

Infere-se, portanto, desse exercício reflexivo e das conclusões aludidas, que a relevância da discussão sobre ‘os ditos verdadeiros’ é uma evidência observada, seja no contexto geral da sociedade do conhecimento, que assinala a necessidade de assertivas como fundamento do delineamento da produção das ciências e tecnologias, assim como das políticas de Estado e dos governos, das empresas e da sociedade civil organizada, seja na particularidade da vida cotidiana do indivíduo, que requer o parâmetro da assertiva como norte e sustentação da existência de saberes confiáveis e edificantes, capazes de orientar a escolha de alternativas, de decisões e de ações concretas, exequíveis e consequentes, tendo em vista o uso inteligente e econômico de seu tempo, esforço e recurso, a solução de seus problemas existenciais e sociais e a realização das metas e projetos de vida, que pretendem construir. 

João Pessoa, 10 de fevereiro de 2013. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

DITOS SINCEROS


Por Erenildo J. C.



O ato de ouvir e observar cuidadosamente o que os falantes dizem no cotidiano ou em situações especificas, como as que ocorrem durante um encontro familiar, uma reunião de trabalho, uma sessão clínica, um julgamento, uma aula, uma pregação religiosa, uma palestra, um debate politico ou uma divulgação de notícias pela mídia, permite identificar, em certos casos, que o falante não foi sincero sobre o que disse e que, por isso mesmo, acabamos não aceitando ou dando a devida atenção ao que ele disse.

Ora, se a todo momento nos deparamos com a situação de dizer ou ouvir alguém dizer alguma coisa sobre algo, como seria precária nossa relação intersubjetiva, nossa rede de relações sociais, se fossemos movidos pela dúvida permanente a respeito das coisas ditas e ouvidas? Se percebessemos uma constância na ausência (ou de indícios da ausência) de sinceridade dos falantes em relação ao que dizem? Certamente, seria extremamente desconfortável experimentar situações cotidianas ou especializadas de comunicação nas quais os falantes não fossem sinceros: o professor que ensinasse o que não sabe, o estudante que repetisse e copiasse o que não conhece, o pregador que anunciasse o que não crê e não aconteceu, o político que dissimulasse suas reais intenções e interesses, o advogado e a testemunha que mentissem para ganharem a causa em questão, o reporter ou comentarista que enviesasse a informação transmitida, o paciente que contasse o que não sente, os familiares que dissessem o que não ocorre.

A constatação desse acontecimento no mundo da fala, permite formular a premissa da necessidade de um modo diferente de dizer, que aqui denomino, de ‘ditos sinceros’, que deveriam ser inseridos, predominantemente, na ordem social das relações intersubjetivas, importantes para o conhecimento das pessoas com quem falamos e ouvimos, com quem conversamos e dialogamos, com quem convivemos e compartilhamos nossas histórias, os acontecimentos cotidianos, nosso mundo interior e perspectiva de vida!

Considerando o reconhecimento da especificidade e do modo de existência dos ‘ditos sinceros’, elaborei algumas conclusões gerais a partir deles: a) o dito sincero se caracteriza pela correspondência entre a afirmativa do sujeito falante e o conteúdo da sua subjetividade individual; b) existe um conjunto de coisas ditas, que não merece confiabilidade, por conta de que o sujeito falante não fala algo que de fato entenda, acredite, deseje, sinta, imagine ou faça; c) a sinceridade do falante, ao dizer algo, não confere às coisas que ele diz o estatuto de assertiva, isto é, afirmativa verdadeira; d) a sinceridade é um critério necessário à aceitabilidade das coisas ditas na cultura da palavra; e, por fim, e) os ditos sinceros são necessários para que sejam estabelecidas relações intersubjetivas saudáveis e edificantes.

Parece-me, que muito embora não haja uma relação direta entre os `ditos sinceros` e a produção da verdade, uma coisa é certa: eles indicam uma alternativa de dizer algo para alguém a partir do pressuposto de que o que estar sendo dito não tem a intencionalidade de enganar o outro, mas ao contrário, de compartilhar com ele um modo individual de pensar, sentir e viver. 


João Pessoa, 02 de fevereiro de 2013.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A CONSCIÊNCIA DA COMPLEXIDADE DO DIZER




Erenildo J. C.



Movidos pela necessidade de sobrevivência, pelo desejo de dizer algo,  pelos achados encontrados ou pelo  encantamento diante das coisas e dos outros, aprendemos a nos comunicar, isto é, a dizer algo sobre alguma coisa para alguém.
No curso de nossa história, inventamos formas diferentes de comunicação: os gestos, os gritos, as falas, os sinais, as imagens e as escritas são alguns exemplos. Aos poucos, durante um certo tempo, cada uma dessas produções foi sendo fixada, incorparada e transmitida de uma geração à outra, foram se tornando patrimônio cultural da humanidade e atributos do gênero humano.
No desenvolvimento histórico do ato de falar aprendemos que certas maneiras de dizer comunicam mais ou menos, melhor ou pior aquilo que se quer dizer. O acúmulo da experiência comunicativa permitiu subistituir um modo por outro, combiná-los e refiná-los. Nesse processo, o gesto e o grito foram sendo substituídos pela fala, que ganhou um lugar fundamental no contexto das relações sociais. Ontem e hoje, vários povos, etnias, raças e grupos sociais recorreram (e recorrem) a cultural oral, como meio de comunicação hegemônico. Antes da invenção da escrita, vivemos milhões de anos imersos no seio da cultura oral e gesticular. A história dos índios brasileiros é um exemplo do que estamos tratando!
A relevância do acontecimento da fala em nosso cultura, como uma maneira de dizer algo para alguém, fez dela não-somente um ato de aprendizagem necessário à mediação da sociabilidade dos indivíduos e grupos sociais, como também operou um deslocamento da preocupação da fala para o dizer: o que se diz, as maneiras de dizer, seus efeitos e seus modos de existência se tornaram objetos do conhecimento.
Esse fenômeno evidencia uma necessidade individual e social do aprofundamento da consciência sobre o dizer, sugerindo à formulação de perguntas do tipo: podemos ter consciência do que dizemos? Se podemos, quais são os tipos e níveis possíveis de consciência sobre o dizer? Quais são as estratégias de análise adequadas para atingirmos a consciência almejada sobre o tipo e o nível do dizer investigado?
Provocadas pelo acontecimento da fala e do dizer, as perguntas formuladas assinalam, de certo modo, a relevância da reflexão, do estudo, da pesquisa e do ensino sobre os dizeres, os ditos, seus efeitos e seus modos de existência que tem sido empreendido sobre a questão por diferentes ciências, áreas de conhecimento e práticas culturais: psicologia, sociologia, antropologia, história, filosofia, neurociência, semiótica, análise do discurso, religião, política, mídia, pedagogia, educação etc.
 O fato é que o par falar-dizer exige que tenhamos consciêcia de sua complexidade, suas múltiplas dimensões e implicações. Sobretudo, quando militamos e trabalhamos no sentido do desenvolvimento de uma consciência crítica e criativa capaz de empoderar o indivíduo e os sujeitos sociais a dizer o que pensa, sente e vive. Entretanto, a consciência que pretendemos ter, saber ou constituir está diretamente relacionada ao aspescto do dizer que elegemos como objeto de nossa preocupação, a exemplo da consciência enunciativa que desenvolvemos mediante a análise arqueológica do discurso acionado e articulado pelo falante que diz alguma coisa sobre algo para alguém.

João Pessoa, 27 de janeiro de 2013.




DITOS NÃO FEITOS




Erenildo J. C.

Provavelmente, você tenha ouvido a frase ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’. Hoje, ao ouvi-la, pus-me a pensar sobre seu significado. A primeira ideia que esse dito popular comunica consiste na possibilidade de alguém dizer alguma coisa que não faz.  A segunda ideia diz respeito à consciência que o falante tem da relevância do que diz. O que é evidenciada no conselho dirigido ao ouvinte no sentido de que ele oriente sua ação em conformidade com o que a mensagem anuncia. Por último, a frase sugere uma indisposição (ou impossibilidade) do falante fazer o que diz, mesmo reconhecendo sua importância.
O ato de dizer e não fazer ou de não fazer aquilo que se diz, mesmo tendo consciência de sua importância, identifica um evento muito comum em nossos dias e histórias. Talvez você ainda não tenha se apercebido desse fenômeno. Façamos um exercício de reconhecimento. Faça um esforço de se olhar no espelho de sua vida, relembre algumas de suas falas, algumas coisas que você tenha dito e não fizera. Agora, se distancie de você mesmo! Olhe no seu entorno, escute as pessoas ao seu redor, aquelas com quem você convive e observe quantos ‘ditos não feitos’ ocorreram.  Se distancie um pouco mais! Você gosta de poesia, de romance, de drama, de estória policial, enfim, de literatura? Observe sua mensagem, sua narrativa e verifique quantos ‘ditos não feitos’ elas registram. Você escuta música? Escolha as que você mais prefere ouvir. Ouça suas letras e melodias: quantos ‘ditos não feitos’ elam cantam. Tome um pouco mais de distância! Você assiste filme? Escolha, alguns de seu gosto e verifique quantos ‘ditos não feitos’ eles veiculam. Ora, se assim quiser, poderia continuar a adentrar na rede de diversas práticas culturais do nosso tempo presente e passado, tendo em vista identificar e constatar a presença de ‘ditos não feitos’.
A regularidade desse fenômeno singular em tempos, lugares distintos e diversos nos possibilita elaborar algumas ideias mais gerais, não apenas sobre sua existência, enquanto um acontecimento que marca as relações sociais e intersubjetivas, mas também sobre seu modo de ser. Primeiro: esse modo de ‘dizer o que não se pretende fazer’ pode ser nomeado como retórico: discurso retórico, fala retórica ou assertiva retórica. Vamos chamá-lo, aqui, de ‘ditos não feitos’. Segundo: a presença do fenômeno é intensa, ramificada. Ele perpassa classes, grupos, raças, etnias, religiões, partidos políticos, ONGs, movimentos sociais, empresas, instituições governamentais e a mídia.  Ele contamina e contagia nossa vivência pessoal e experiência social. Terceiro: a existência peculiar dos ‘ditos não feitos’ que trazem a consciência da relevância do que é dito e sua concomitante não efetividade, por parte do falante, evidencia a necessidade de que seja compreendido e explicado em seu modo particular de ser e funcionar. Quarto: parece que ‘os ditos não feitos’ se apresentam como uma espécie de acontecimento discursivo merecedor de nossa atenção reflexiva, corroborando a necessidade da formulação de perguntas como as seguintes: por que se diz o que não se faz? Por que não se faz aquilo que se insiste em dizer, ensinar e aconselhar? Por que denunciamos a impertinência de certas ações ao desencorajar que orientem suas ações e vidas a partir delas?
Uma coisa está posto: quem diz a frase ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’ embora seja contraditório, parece ser uma pessoa sincera e consciente do que diz. Então, por que ela não faz o que diz? Talvez porque não considera o que diz como necessário, possível ou desejável. E você, o que pensa sobre os ‘ditos não feitos’?

João Pessoa, 15 de janeiro de 2012.





quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

POR UMA ÉTICA DO DIZER





Por Erenildo J. C.

É senso comum, o saber de que vivemos imersos numa cultura oral, em que a fala se configura como um artefato necessário à sociabilidade dos indivíduos e grupos sociais. Antes da escrita, surgiu a fala. No território da civilização da palavra, dizer se tornou um dispositivo de comunicação imprescindível, que põe um indivíduo diante do outro, que expressa à consciência que se tem sobre algo, que confere visibilidade a intenções, desejos, interesses, sonhos, valores, convicções, saberes...
Nesse cenário, dizer é uma maneira de propagar, instituir e manter viva a memória dos acontecimentos, das histórias, das ideologias e das concepções de mundo, tidas como legítimas. Nesse sentido, o dizer, como dispositivo de comunicação, suscita, pelo menos, três ordens de questões sobre o assunto: a) o dito como expressão da consciência que se tem sobre algo; b) o dito como uma representação dos fatos existentes; e c) o dito como anuncio do que se fez, faz ou fará. Reflitamos!
Questão (a): ‘o dito como expressão da consciência que se tem sobre algo’. Entendemos, aqui, consciência como o conjunto de sensações, percepções, ideias, representações, sentimentos, saberes, convicções, valores, desejos, preferências, sonhos, metas e concepções. Quando a consciência que temos sobre algo não é dita, permanece no plano da consciência, invisível para o outro. Ao nos referirmos sobre ‘o dito como expressão da consciência que se tem sobre algo’ estamos falando sobre um gênero de consciência conhecida, pelo fato de ser comunicada. Nesse caso, o dito é considerado como uma via de conhecimento e de concretização da consciência, um modo de compartilhamento. Nesse dito, a consciência se expressa, se põe, se coloca, ganha existência para o outro.
Questão (b): ‘o dito como uma representação dos fatos existentes’. Compreendemos, aqui, os fatos existentes como tudo que existe na natureza e na sociedade. Quando as coisas ditas conseguem capturar os acontecimentos, os processos, as relações, os aspectos e as dimensões da realidade existente, sejam da natureza ou da sociedade, de modo que ao falar algo sobre eles, dizem algo que, de fato, nos ajuda a conhecê-los e entendê-los, estamos diante de um ‘dito como uma representação dos fatos existentes’. Nesse dito, o mundo é expresso, é posto, é colocado, ganha existência para os indivíduos, em geral.
Questão (c): ‘o dito como anuncio do que se fez, faz ou fará’. Concebemos, aqui, ações como atos concretos, intencionais ou não, efetivados por indivíduos, sujeitos ou instituições sociais determinados. Escrevemos o cotidiano com nossas ações, passadas e presentes, que, por sua vez, desencadeiam outras ações, que se entrelaçam e tecem a complexidade do mundo em que vivemos. Nosso mundo, nossa história, nossa cultura é feita, gerada, produzida, tecida de atos simples, singulares e concretos. Quando as coisas ditas registram as ações passadas, presentes ou futuras dos indivíduos, sujeitos ou instituições, conferindo-lhes visibilidade e tornando-as conhecidas, estamos diante de um ‘dito como anuncio do que se fez, faz ou fará’. Nesse dito, os atos configuram as falas. Os feitos são ditos, postos, colocados, ganham existência intersubjetiva.
Dizer, portanto, é uma ação que produz algo concomitantemente no campo da linguagem, do saber e da sociabilidade. Pensar os ditos, que circulam e se proliferam no cotidiano, exige uma reflexão sobre a necessidade de uma ética do dizer: que ao dizermos algo sobre alguma coisa para alguém, tenhamos a responsabilidade e o compromisso social de que nossos ditos sejam sinceros, verdadeiros e edificantes.

João Pessoa, 04 de janeiro de 2012.

BEBER, FUMAR E JOGAR!



Por Erenildo J. C.

Certo dia, em uma das inúmeras conversas que tenho com meus filhos, Lenildo e Lívia, surgiu uma pergunta: pai, por que você não bebe, não fuma e não joga? Confesso que fui pego de surpresa e fiquei sem saber o que dizer. Na ocasião, Lenildo tinha treze anos e Lívia, oito. Não respondi a indagação. Ademais, a dispersão e justaposição de outros assuntos, tratados naquele momento, sufocaram o diálogo e a reflexão proporcionada pela questão formulada. O tempo passou! De repente, nesses dias, sem mais sem menos, lembrei-me dela e resolvi respondê-la. Atualmente, Lenildo vai fazer quinze anos e Lívia, dez. Um ótimo momento para retomar e refletir sobre a questão.
Por que não bebo, não fumo e não jogo? Será que esse estilo de vida resulta de uma premissa moral, religiosa ou epistemológica? Resulta de uma educação familiar, religiosa e escolar que me proporcionou a possibilidade de ter um estilo de vida saudável? Li sobre o assunto e descobri que não vale apena beber, fumar e jogar? Enfim, qual é o fundamento dessa decisão?
Para entender minha posição é necessário voltar um pouco no tempo. Tomei essa decisão, por volta de 1975, no intercurso do fim de minha infância e prenúncio da adolescência. Mais ou menos a idade dos meus filhos, hoje. Diga-se de passagem, sábia decisão de uma criança que aprendeu, desde a infância, a pensar a partir de sua própria experiência! Assinalo experiência, porque as conclusões e a decisão que dela resultou, não foram baseadas em um juízo de valor moral, mas na observação e reflexão dos efeitos negativos desses artefatos no cotidiano das pessoas com quem convivia! Decisão difícil, sem dúvida, para uma criança submersa em um mundo que erigiu a bebida, o cigarro e o jogo como um artefato relevante de sua lógica cultural!
Vi e compreendi, quando criança, a presença social da bebida, do fumo e do jogo! Sua presença em tempos e lugares diversos: em casa, na igreja, no trabalho, nas festas, na rua… Meu pai e meus irmãos bebiam, fumavam e jogavam! Minha mãe, não! Vários amigos e colegas bebiam, fumavam e/ou jogavam! Inúmeros vizinhos bebiam, fumavam e/ou jogavam! Parte significativa do tempo e dos recursos dessas pessoas destinava-se ao usufruto desses bens culturais.
Vi que onde duas ou mais pessoas estavam reunidas, com o intuito de celebrar o nascimento de uma nova vida; de exaltar uma conquista, uma meta alcançada ou um sonho realizado; de comemorar um nascimento, um casamento, o natal ou o fim de ano; de se encontrar para trocar ideias, avaliar, planejar o futuro; ou, simplesmente, de jogar conversa fora, pelo simples prazer de se sentir bem com o outro; ali se faziam presentes à bebida, o fumo e o jogo!
Lembro que meu pai bebia dias seguidos! Bebia tanto que imaginava ver assombrações! Às vezes ele passava dias acamado! Em uma de suas crises pós-embriaguês, teve um sonho que o fez parar de beber. Sonhou com um lugar seco, árido, deserto. Por onde caminhava sem destino e sem sentido! Quanto mais andava, mais a paisagem desértica se consolidava. De repente, se deparou com uma arvore caída, seca! Ao se aproximar e olhar em seu interior viu um ramo de planta, verdinho, crescendo em meio à morbidez do toco seco e da aridez do ambiente! Impactado pelo que sonhou, acordou… suado, com o coração batendo! Parou e respirou fundo! Relembrando o sonho, refletiu sobre seu conteúdo e concluiu, comparativamente, que a sua vida era a paisagem árida, que ele era o tronco seco e que eu era a ramo verde, que despontava no seio do tronco seco, caído e evanescente. Após a reflexão decidiu não mais beber, pois, a partir de então, desejava cuidar e acompanhar o crescimento do ramo verde dos seus sonhos: eu. Nessa época, eu deveria ter uns seis anos. Não me lembro desse fato, ouvi meus pais contarem!
Meu pai parou de beber, mas não de fumar e de jogar! Morreu em 1978, época de copa do mundo, sem ter enriquecido com suas apostas na loteria, no jogo de bicho e na loto. Laudo médico: edema pulmonar. Minha mãe morreu em 2005, sem nunca ter fumado e bebido. Laudo médico: câncer no pulmão! Ela era fumante passiva! Aspirou, durante muitos anos, a fumaça dos tragos de cigarro do meu pai! Um dos preços da convivência com um fumante!
Quantos morrem de câncer e edema pulmonar gerado pelo cigarro? Quantos morrem de cirrose por conta de ter submetido seu fígado ao álcool durante muitos anos? Quantos lares são destruídos e casamentos são desfeitos por conta do uso de bebidas e outras drogas? Quantos acidentes de trânsito e violências domésticas são produzidos cotidianamente por conta do consumo da bebida? Quantos adolescentes e jovens morreram em festas, por conta de brigas geradas pelo consumo de álcool e outras drogas? Quantos sentiram a necessidade de substituírem a bebida e o cigarro por drogas mais fortes, gerando, assim, dependência química mais serias!
E o que dizer dos jogos de azares como forma de lazer, como esperança de uma nova vida e aposta de um futuro melhor; como artefato cultural de consumo e como estratégia de reprodução do capital! O jogo de azar, assim como a bebida e o fumo se ramificaram de tal forma que teceram uma rede cultural complexa a ponto de penetrarem e se instalarem nos lares, nas igrejas, no mundo do trabalho, no entretenimento, na subjetividade e na afetividade dos indivíduos singulares!
Essa atmosfera cultural se apresentava, desde a mais tenra idade, como modelo a ser seguido e aprendido ao longo da vida. Ela fazia do beber, do fumar e do jogar um exemplo a ser seguido. O adensamento dessa presença se fazia sentir no uso da bebida, da droga e do jogo não somente como fontes de prazer e de sociabilidade, mas também como estratégias de fuga da realidade. O interessante é que, quando muitos se sentem tristes, vazios, em crise, aperreados, por alguma razão, uma das possibilidades que vislumbram de enfrentamento da situação se expressa justamente na busca da bebida, do fumo e/ou do jogo como refúgio, conforto e solução do problema vivido!
Os efeitos desses artefatos adquiriram um novo status, uma nova função sociocultural, a de serem terapêuticos e redentores! Em outras palavras, parecem entidades divinas portadoras de uma espécie de poder capaz de proporcionar o divã, o nirvana, a libertação. Embriagados, contemplando a fumaça que esvanece no ar, sentido os efeitos neurais do álcool e da nicotina, encantados com os desafios, as expectativas de vitória e os simulacros das apostas, o consumidor fiel imagina que seus problemas desapareceram, foram resolvidos!
Hoje, tenho a impressão de que esses três artefatos culturais foram erigidos como uma espécie de símbolo da sociabilidade contemporânea! Capazes de mediarem às relações intersubjetivas entre os indivíduos singulares, os grupos e as classes sociais! Ícones transversais que perpassam vários lugares sociais, vários segmentos sociais e se instituem como parâmetros de uma­ moralidade que captura afetos, que estrutura valores, consolida interesses sociopolíticos e mercadológicos e institui práticas locais, nacionais e internacionais! O valor simbólico dessa tríade, associado ao prazer ou a dor consolida  mundialmente o fenômeno.
O cotidiano é testemunha de tudo isso! O ato de ver e de observar esses acontecimentos foi uma estratégia inconsciente utilizada para saber e decidir! Não li sobre o assunto, pois ainda não tinha despertado a curiosidade epistemológica para conhecê-lo, para saber sobre as histórias, os efeitos na saúde das pessoas, as implicações familiares e sociais dessa tríade cultural! O mundo da vida foi meu primeiro livro, minha fonte de conhecimento! Vi, antes de me interessar em ler! Decidi a partir do que vi!
Como fugir de seus enlaces, de suas amarras, se nos encontramos imersos nessa atmosfera cultural? Como não se deixar seduzir por seus cantos, encantos e promessas de autoafirmação, de reconhecimento, de realização pessoal e êxito social? Como escapar, renunciar, se esquivar do consumo, da tradição do álcool, do fumo e das apostas nos jogos de azar? Confesso que não sei! Cada caso é um caso! Parece-me que não há resposta única para perguntas tão complexas e diversas! Penso que cada um deve buscar a resposta mais adequada para cada caso que quiser conhecer, que desejar compreender e que aspirar descobrir alternativas de encaminhamento e enfrentamento.
Contento-me, aqui, por hora, em responder a pergunta formulada por meus filhos “pai, por que você não bebe, não fuma e não joga?”, com a seguinte afirmativa: quando criança, eu vi que não era bom, por isso decidi não fazer. Desde então, não bebo, não fumo e não jogo! Hoje, reconheço a sabedoria e a relevância dessa decisão e os efeitos positivos que ela gerou em minha vida!

João Pessoa, 29 dezembro de 2012.


MEMÓRIAS



Por Erenildo J. C.

É sempre bom relembrarmos o passado…, penso!
Percorrermos suas trilhas como quem passeia ao ar livre e admira a paisagem, 
seu em torno, seu curso e movimento! 

É verdade, nem sempre é bom revisitar o passado…, retrunco!

Percorrer seus caminhos, pode nos trazer lembranças ruins! 
Vielas, becos, avenidas, ruas, labirintos… 

Talvez, às vezes seja bom; outras vezes, não… imagino! Entretanto, é necessário e sempre possível um encontro com o passado!

Aprendi a olhar para ele, enfrentá-lo e percorrê-lo! 

Aprendi a vê-lo com um olhar centrado em um sentido: o de quem procura…! 

O olhar de quem deseja e busca entender o presente! 

Talvez seja bom! 
A procura curiosa, o desejo inteligente, a superação da ignorância! 

Para quem deseja aprender e saber a memória é, inegavelmente, uma fonte inesgotável! 
Vê no passado uma fonte de aprendizagem e sabedoria! 

Seja curioso, reflita para entender! 
À luz do que se foi, procure entender o que permanece e o que mudou! 

A memória é fonte para quem se deixa encantar com o que encontra! 

Nesse sentido, é necessário vasculhar a memória e reviver lembranças; 
reler o álbum da vida, da infância, da juventude e da adultez. 

Revisite a história… 
Séries de acontecimentos, situações, pessoas, relações que se entrelaçam e nos constituem! 
Enredo de um passado possível, que produz a história presente! 

Talvez, em meio às imagens contidas na memória, aos achados encontrados e descobertos, possamos entender os enlaces do presente, desatar alguns nós, ressignificar o presente e dimensionar o futuro. 

O que é o presente? 
Uma síntese das múltiplas determinações possíveis, constituídas a partir do entrelaçamento dos acontecimentos passados. 
E o futuro? 
Algo a ser tecido, hoje, a partir de ontem! 

          João Pessoa, 28 de dezembro de 2012.