domingo, 26 de junho de 2016

DITOS IDEOLÓGICOS II




Por Erenildo João Carlos

Na reflexão anterior, assinalei que o significado da palavra ideologia está diretamente relacionado às regras de funcionamento do dizer acionado pelos falantes e interlocutores, envolvidos em determinadas conversas. Destaquei também, em determinado ponto, que, em certos casos, o termo ideologia aparece associado aos ditos verdadeiros e falsos. Nessa perspectiva, a depender da natureza da formulação proferida, ou seja, do que se fala sobre alguma coisa, o dito poderá ou não informar algo efetivamente existente, proporcionando, ou não, ao ouvinte, o conhecimento dos assuntos tratados. 

Ao analisar mais detidamente a questão da ideologia nos ditos verdadeiros e falsos, nota-se que, neles, o significado do termo ideologia é constituído em função da noção de representação simbólica das coisas existentes. Ou seja, da ideia de que determinados símbolos servem para tornar presente algo ausente, representando-o. Nesse processo de representação da coisa ausente, os símbolos selecionados e empregados teriam várias funções, a exemplo das comprometidas com a lembrança, o exemplo, a ilustração, a explicação e, em suma, o entendimento da coisa sobre a qual se fala.

Ora, se assim for, pode-se dizer, a partir da análise da presença da ideologia nos ditos verdadeiros e falsos, que há um modo possível de existência da ideologia que requer, necessariamente, o estabelecimento de um vínculo entre seu significante e o significado representações simbólicas, de modo tal que essa associação funcionaria como a regra central da elaboração das coisas a serem pensadas e ditas.

Tal modo de existência evidencia um posicionamento que possibilita identificar e descrever as representações simbólicas como o produto da atividade racional do pensamento (ideias, conceitos, teorias, esquemas, imagens, modelos etc.) sobre as coisas existentes; assim como a expressão de um modo imaginativo da razão humana, cujo caráter criativo e inventivo peculiar possibilitaria a codificação de se dizer o que se pensa a partir de outra racionalidade, a poética. 

Aparecendo como expressão e objetivação do movimento racional e imaginativo do pensamento humano, a ideologia, enquanto representação simbólica, tanto pode ser acionada pelos dizeres ocupados com a produção, difusão, apropriação, análise e crítica dos ditos verdadeiros e falsos, a exemplo dos formulados no campo dos saberes filosóficos e científicos; quanto pelos dizeres que operam com o imaginário e o fantástico, a exemplo dos ditos elaborados no território da literatura, das artes e dos mitos. Nesses termos, os ditos ideológicos tanto podem ser falsos ou verdadeiros, como imaginários e fantásticos.

Embora a ideologia, nos casos aqui analisados, apareça com uma dupla função mediadora - a de mediar simultaneamente, por meio de formas simbólicas, a relação entre o pensamento e as coisas e entre as falas e os sujeitos interlocutores -, pode-se concluir, de forma geral, o seguinte: o significado do significante ‘ideologia’ depende das regras de funcionamento do modo como (a) o dizer opera e se efetiva, concreta e socialmente, nas experiências e situações conversacionais; como (b) os sujeitos falantes acionam os saberes que se encontram disponível no arquivo cultural da sociedade; e como (c) o dizer põe em movimento o jogo das intenções e dos interesses, dos assuntos e dos problemas pautados no curso da conversa empreendida.

Descrito precisamente assim, isto é, como representações simbólicas, o termo ideologia aponta, a um só tempo, seu reconhecimento como um modo específico de pôr as falas em funcionamento no jogo das conversações cotidianas, assim como um campo de reflexões, de estudos e de investigações sobre a natureza e a legitimidade dos saberes acionados pelos falantes, sobre os quais podemos nos debruçar e conhecer.

João Pessoa, 26 de junho de 2016.

sábado, 21 de maio de 2016

DITOS IDEOLÓGICOS



Por Erenildo Joao Carlos


Não sei se o leitor notou, nos escritos que tenho produzido e registrado, no contexto desse espaço virtual, que o termo ‘ideológico’ tem aparecido inúmeras vezes. Não obstante o fato de que eu não tenha me ocupado intencionalmente em refletir sobre os ditos e dizeres ideológicos, o termo aparece e circula recorrentemente no seio dos ditos e dizeres investigados. 

Com efeito, a presença regular de formulações ideológicas nas conversações cotidianas sugere a necessidade de uma investigação mais focada a partir de, pelo menos, duas perspectivas: uma, sobre a especificidade de seu modo singular de existência; outra, sobre a função que elas desempenham no funcionamento de outros ditos e dizeres.

Ao revisitar os achados oriundos das escavações reflexivas feitas no âmbito das falas cotidianas investigadas, observo que a suposta ausência de precisão, ou de um sentido único e específico, ocorre por conta do significado que o termo ‘ideológico’ adquire no interior das regras dos ditos e dizeres problematizados por mim, até aqui. Em outras palavras, a evidente imprecisão e concomitante polissemia do termo ‘ideológico’ se explica, sobretudo, pela função que ele assume no exercício da fala proferida pelo falante no cerne de suas conversações.

Constato, também, que o significante 'ideológico' aparece, geralmente, de dois modos: um, positivo; e, outro, negativo. O modo positivo surge, por exemplo, nos dizeres verdadeiros e sinceros. Neles, a palavra ‘ideológico’ adquire, de um lado, uma conotação associada à visão de mundo, anúncio de projetos e de filosofias de vida, horizonte e campo de luta, sentido e valor existencial, assumidos por indivíduos e agrupamentos de sujeitos sociais. Esse entendimento me faz lembrar, por exemplo, a formulação cantada por Cazuza em sua música, na qual dizia: ‘ideologia, eu quero uma para viver’. De outro lado, o termo vincula-se à representação simbólica das coisas existentes, que codificaria e informaria algo efetivamente existente: acontecimentos, processos, relações, jogo de interesses, casos, experiências, situações, dissimulações, simulacros, discursos, práticas, ritos, procedimentos, saberes, valores etc. Esse significado abarca uma série diversificada de representações, a exemplo de saberes, conhecimentos, teorias, conceitos, métodos, concepções, axiomas, princípios, formulas, esquemas, modelos, regras, procedimentos, instrumentos etc.

Na ordem da dupla semântica da positividade, os ditos ideológicos seriam considerados como uma espécie de formulação sincera, pois, de um lado, retratariam o conteúdo real da subjetividade dos falantes, tais como pensam, sentem, desejam, aspiram, entendem e agem. De outro, uma formulação verdadeira, porque proporcionariam ao ouvinte o conhecimento real das coisas existentes, ou seja, dos assuntos tratados no curso da conversação estabelecidas entre os falantes.

Por sua vez, o modo negativo pode ser encontrado, por exemplo, nos ditos e dizeres retórico-pragmáticos. Neles, o termo ‘ideológico’ assume uma conotação vinculada à ideia de mentira, de dissimulação, de jogo vazio de palavras, geralmente, com fins ocultos e prejudiciais aos ouvintes. Nessa perspectiva, ‘ideológico’ seriam todos os ditos que, de um lado, encobrem a intencionalidade do falante, caracterizando-se, assim, pela dissimulação, pelo esconde-esconde, pelo jogo do não dito e do não revelado, pela ordem do segredo, do indizível. De outro, seriam os ditos que produzem o desconhecimento das coisas sobre as quais se diz algo, identificando-se, assim, como uma espécie de formulação falsa, vazia de referência do real, simulacro. 

No jogo retórico da dupla semântica da negatividade, os ditos ideológicos têm, no primeiro caso, a função de esconder, camuflar, escamotear, desvirtuar as intenções, os interesses e os desejos do falante, bloqueando o acesso à sua subjetividade. No segundo, sua finalidade seria a de elidir a realidade, impedindo os ouvintes de conhecê-la, de entender as coisas tais como elas são efetivamente: funcionaria como um dispositivo de interdição do acesso à informação e ao conhecimento necessário ao desenvolvimento do entendimento e da formação de uma consciência fundada na realidade do assunto posto em questão.

Penso que em um cenário cultural e social afeito à dimensão negativa da ideologia, vale à pena refletir sobre as duas possibilidades de aparecimento do termo ‘ideológico’. De modo que estejamos atentos à maneira de apropriação e emprego assinalado na ordem geral de funcionamento dos dizeres acionados pelos falantes em situações concretas. Que possamos ter ciência dos possíveis modos e efeitos, edificantes e destrutivos dos ditos ideológicos, interpostos no jogo das conversações cotidianas que estivermos implicados. Que saibamos acionar o conhecimento como contraponto à negatividade hegemônica dos ditos ideológicos!


João Pessoa, 21 de maio de 2016.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O DIZER ESPERTO II




Por Erenildo J. C. 


Como foi discutido anteriormente, o modo retórico-pragmático de pôr em funcionamento a fala, a partir da esperteza, proporciona o aparecimento, o cultivo e o desenvolvimento de uma série de ditos e de dizeres, denominados, aqui, de espertos. 

Trata-se, com efeito, de uma espécie de linguagem que utiliza um jogo argumentativo específico, como ferramenta, estratégia ou dispositivo de convencimento e persuasão do outro, no curso de uma conversa, debate, diálogo, em suma, comunicação, cujo objetivo visa alcançar, pela via da esperteza, determinados fins, realizar certos interesses, sejam eles de natureza ideológica, política, religiosa ou econômica.

Um dos efeitos esperados é o de gerar no ouvinte a impressão de que o que está sendo dito seja certo, verdadeiro e sincero. O que não passa de uma falácia, face ao gênero e à natureza do objetivo almejado. Por ser geralmente associado à produção de danos no outro: bens, imagem, prestigio, saber, competência, posição etc., o objetivo é, na maioria das vezes, dissimulado e oculto – um não-dito 

Entretanto, em função da tomada de consciência (seja por descoberta, revelação, denúncia ou delação) de que o sujeito falante não tem comprometimento efetivo com a retidão, a verdade e a sinceridade (confirmada pelo conhecimento de sua trajetória de vida pessoal/profissional, marcada pela esperteza), o ouvinte acaba por não acolher a mensagem formulada e, consequentemente, não se comportar, agir, falar, sentir e pensar do modo esperado, isto é, em conformidade com os fins espertos postos em jogo no horizonte argumentativo da esperteza.

Quando isso acontece, frustrado, decepcionado, o sujeito esperto desencadeia, raivosa e sutilmente, o uso de procedimentos mais agressivos e violentos: de um lado, intensifica e diversifica a série de ditos constituídos pela mentira, pela dissimulação, pelas meias verdades e pelas promessas irrealizáveis; de outro, aciona falas e dizeres, tecidos na ameaça, no medo e na desqualificação do outro e de tudo aquilo que seja contrário a seus interesses.

Não importa como isso será feito no âmbito da série de argumentos que ativará. Poderão ser acionados elementos de diversa natureza e gênero: estórias e experiências pessoais; narrativas de sacrifício, de heroísmo ou de drama locais e sociais; formulações baseadas em mitos, lendas ou ritos convenientes, advindos do saber e da cultura popular; saberes oriundos da erudição, elaborado no âmbito da filosofia, da teologia, da ciência ou do direito. Independente da natureza da formulação, o que interessa são os fins a serem alcançados. Com efeito, na economia dos ditos e dizeres espertos, o que vale é contabilizar o lucro, o ganho, o quanto foi possível obter ‘com o chapéu alheio’, seja ele consumidor ou trabalhador; cidadão, servidor ou governante; mercado, sociedade civil ou Estado; presente, ausente, próximo ou distante.

Vale salientar, no entanto, que a força do convencimento e o efeito das coisas ditas sobre o ouvinte não se encontram tão-somente no âmbito do jogo argumentativo. Seu poder e efetividade concreta são retroalimentadas no seio da cultura da malandragem consentida e compartilhada, que impregna instâncias do Estado, da sociedade civil e das empresas. 

Em outros termos, pode-se dizer que o solo histórico-cultural brasileiro da malandragem apresenta-se como fértil, graças ao nepotismo, à corrupção, ao fisiologismo, ao clientelismo e ao patrimonialismo instalado e institucionalizado. Nele, os ditos espertos circulam de terno e gravata, de salto alto e nariz empinado, de relógio e pulseira de ouro, com ares de prestígio, superioridade e realeza. Nele, florescem e se alastram, ocupam espaços públicos e privados diversos; ganham visibilidade e legitimidade institucional nas câmaras, nas assembleias, nos conselhos, nos colegiados, nos fóruns, eventos, púlpitos e palanques. São ouvidos e vistos em rede de televisão e da internet. Capilarizam-se no cotidiano, alimentando-se por meio de práticas desumanizantes, pautadas na discriminação, na segregação, no preconceito, na interdição de direitos, no puxar o tapete do outro etc. 

No solo histórico-cultural da malandragem, os ditos e dizeres espertos são erigidos à condição de marco de referência da linguagem excelente, parâmetro de sucesso, de eficiência e de eficácia. Graças a eles, aumentam-se as vendas de produtos e serviços; elegem-se candidatos; convertem-se descrentes; mobiliza-se a população; derrubam-se governos; difunde-se utopias e visões de mundo.

Corolário de uma certa cultura e história brasileira, que tanto muitos desejam superar, os ditos e dizeres espertos conferem poder aos malandros para o exercício inteligente e competente, legitimado e compartilhado, do controle e da dominação, realizado, por meio do poder da palavra, no âmbito da gestão das pessoas, das finanças, dos valores, dos sentidos, dos saberes, das palavras e das coisas cotidianos.

Em face do reconhecimento da existência da cultura da esperteza, e dos ditos e dizeres espertos, parece-me que seja prudente o exercício da dúvida metódica diante do que se escuta (lê e vê), mantendo-se sempre em alerta, prevenindo-se e precavendo-se. Ou, como afirma a sabedoria popular: que estejamos sempre ‘com a pulga atrás da orelha’, diante dos que celebram e defendem a máxima do ‘fazer festa com o chapéu alheio’.


João Pessoa, 18 de janeiro de 2016

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O DIZER ESPERTO I


Por Erenildo J. C. 



Considerando o que escrevi antes, entenda-se os ditos espertos como um conjunto específico e delimitado de formulações, emitidas por meio da fala, que funciona como um dispositivo de convencimento de alguém sobre alguma coisa, e cujo o efeito gerado no ouvinte, corresponda a uma impressão de que o que se diz seja, de fato, sincero, certo e verdadeiro, quando, contrariamente, não é, pois quem pretende ‘tirar vantagem em tudo’ e ‘fazer festa com o chapéu alheio’ não tem, efetivamente, comprometimento com a sinceridade, a correção e a verdade.

Quando algum desses conteúdos e gestos aparecem no contexto da fala, a exemplo de pronunciamentos, anúncios, afirmativas e opiniões, nota-se que a presença da sinceridade, da correção ou da verdade não passa de um meio ou estratégia de demarcação e consolidação de um fim determinado. Fim, geralmente, oculto, dissimulado e secreto. Em outros termos, as formulações com teor de sinceridade, veracidade e correção, no cerne do dizer esperto, são acionadas e postas em jogo, em função de sua utilidade.

Com esse intuito, o falante afeito à cultura da malandragem, enraizado nela e dela se beneficiando, aciona, mobiliza, conferi visibilidade e status às formulações úteis a seus interesses, sejam elas vinculadas ao real ou ao imaginário, ao verdadeiro ou ao falso, ao certo ou ao errado, ao permitido ou ao proibido, à coragem ou ao medo, ao amor ou ao ódio, ao próximo ou ao distante, ao feio ou ao belo, à dúvida ou à certeza, ao legal ou ao negociado, ao científico ou popular, ao elogio ou à desqualificação, à festa ou à segregação.

Visto assim, os ditos espertos se situam no território mais amplo do dizer e dos ditos retórico-pragmáticos, cuja admissibilidade e aparecimento de qualquer formulação somente serão possíveis e permitidos pela utilidade que ela tenha no jogo argumentativo, inteiramente comprometido com a realização dos fins estabelecidos.

Nesse território, pode-se dizer que se encontra uma região, esquadrinhada por uma ordem de fala, centrada e organizada por um gesto de esperteza, que seria a expressão simultânea de uma ação inteligente e eficiente, cujo interesse último seria o de se apropriar da coisa alheia para atender fins próprios, que, oportuna e convenientemente, poderão ser idênticos ou similares, distintos ou antagônicos à vontade do interlocutor presente, de ouvintes ausentes e de instituições existentes.

Jogar o jogo argumentativo da esperteza significa fazer com que as coisas ditas sejam ditas de tal modo, colocadas e dispostas de certa maneira e não de outra, articuladas e significadas em conformidade com o que se quer, ou seja, em função do interesse de expropriação e espoliação do outro, de seus bens, posição, prestigio, saberes, suas habilidades, competências, estética, imagem social, etc., ou da manipulação, dominação e controle de sua vontade, desejos, pensamentos, sentimentos, crenças, esperanças, utopias e ideologias de vida.

Com efeito, a observação sistemática e reflexiva das falas cotidianas indica a existência de um modo de dizer instaurador da esperteza como critério de exercício da fala e de uma espécie de poder argumentativo capaz de convencer alguém ou apropriar-se de algo. 


João Pessoa, 25 de dezembro de 2015

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

OS DITOS ESPERTOS E A CULTURA DA MALANDRAGEM




Por Erenildo J.C

É comum escutarmos, em certas situações, a exemplo da que o Brasil passa hoje, a frase de que alguém tem o costume de ‘fazer festa com o chapéu alheio’. Esse dito popular, rico de significações, indica, no nível da vida cotidiana, a presença de um modo de tratar as coisas alheias como se fossem próprias, ou seja, celebra-se, comemora-se, planeja-se, intenciona-se algo que não se pode ter ou fazer, por si mesmo, a não ser contando com os recursos de outrem. 

Ora, quando essa atitude ou conduta ocorre com regularidade, isto é, quando serve de regra para a ação, podemos levantar a hipótese da existência de indícios de uma cultura marcada pelo viés da malandragem e da corrupção, instauradora de um jogo de relações sociais movido, fundamental e exaustivamente, por uma série de ações, comportamentos, atitudes e procedimentos pautado em máximas do tipo: ‘tire vantagem em tudo’, ‘os fins justificam os meios’, ‘que vença o melhor, o mais forte ou mais esperto’ e ‘pode quebrar ou levar, pois é do governo’. 

Em uma paisagem cultural desenhada por essa regularidade, deparamo-nos com a presença cotidiana e histórica de várias ações negativas e destrutivas, acontecendo em diversos lugares e tempos, sendo realizadas por diferentes sujeitos. Nesse sentido, são emblemáticas ações do tipo: receber notas em atividades escolares, nas quais o estudante não participou; usufruir de bolsas de estudo sem atender os requisitos estabelecidos; transferir para o estudante tarefas que são da responsabilidade e da competência do docente; citar em textos pessoais ideias e frases alheias sem fazer referência a fonte; formular conclusões sem as devidas evidências comprobatórias; adulterar documentos; organizar concursos e remoções de servidores ou docentes sem publicidade e impessoalidade; receber salário sem trabalhar efetivamente; trabalhar menos do que determina o contrato; comprar e não pagar; furar fila; prometer o que não pode ser realizado; sonegar imposto; adulterar o peso dos produtos; vender produtos com a data de validade vencida; estacionar em lugares proibidos; apresentar notas fiscais frias; superfaturar serviços e produtos; executar sem planejar; receber por um serviço que não foi ou será executado; obter benefícios sexuais a partir do poder que se tem (assédio sexual), introduzir assuntos distintos do objeto da matéria ou do projeto (jabuti); apossar-se do que pertence ao outro (roubo); negociar emendas em troca de dinheiro (propina); comprar votos (crime eleitoral); empregar familiares em serviços públicos (nepotismo); trocar favores em espaços públicos (clientelismo e fisiologismo), anunciar serviços e produtos inexistentes (propaganda enganosa); expropriar o trabalhador do resultado do seu trabalho (mais valia); realizar atividades laborativas e remuneradas durante a infância (trabalho infantil); realizar atividades laborativas sem remuneração (trabalho escravo); comercializar pessoas (tráfico humano), agir com as pessoas a partir de critérios relacionados ao sexo, à identidade de gênero, à orientação sexual, à crença, à etnia, à origem social, à deficiência física e à escolarização (preconceito e discriminação); falar o que não acontece e não existe (mentira); intimidar o subordinado no local de trabalho por meio de um poder hierárquico (assédio moral); desqualificar e denigrir a imagem das pessoas (dano moral); introduzir na natureza substâncias nocivas (crime ambiental); etc.

Ter consciência da realidade dessas ações, atitudes, condutas, procedimentos e práticas culturais sugere, no nível da fala e da escuta, o cultivo de uma posição crítica sobre o conjunto de coisas efetivamente ditas, cuja regularidade sinalizaria a existência de uma fala fundada no referido território cultural. Nesse caso, vale o alerta presente no dito popular bíblico: ‘a boca fala do que o coração está cheio’. Em outros termos, cada uma fala a partir do lugar em que se encontra e diz o que sabe e aprendeu. Ora, se a experiência e o lugar de vivência do falante estiverem localizados e alimentados no e pelo cenário da cultura da malandragem e da corrupção, podemos cogitar a possibilidade de que sua fala acione uma série de ditos próprios dessa matriz cultural. 

Considerando essa reflexão e pressupostos, como pertinentes, apropriados e verdadeiros, podemos formular a seguinte conclusão: o exercício da escuta cuidadosa e crítica de falas proferidas em conversações cotidianas, materializadas numa série de formulações, anunciadas por diferentes falantes em circunstâncias e situações diversas, casuais e cotidianas, possibilita a identificação de um tipo de fala, associado à dimensão da cultura da malandragem e da corrupção, denominado, aqui, de ditos espertos, cujo desenho organiza-se em torno de um jogo argumentativo pautados em função do desejo de ‘tirar vantagem em tudo’, de ‘vencer independente dos meios’, de ‘ser o melhor e o mais forte’ a fim de poder sempre ‘fazer festa com o chapéu alheio’.


João Pessoa, 07 de dezembro de 2015.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O DITO E O DIZER PRAGMÁTICO II



Por Erenildo J. C.


A escuta cotidiana de falas aleatórias e casuais, assim como de conversas sistematizadas em espaços institucionais, ou, ainda, de pronunciamentos postos em circulação por meio da mídia escrita e falada, evidencia a existência irrefutável de práticas culturais conversacionais assentadas no dizer e nos ditos pragmáticos.


A observação reflexiva que registrei no escrito anterior explicitou, em primeiro lugar, que os dizeres e ditos pragmáticos possuem, como centro de equilíbrio e constituição, uma fala orientada por interesses determinados. Em segundo lugar, que, em função desses interesses, o dizer pragmático aciona, mobiliza e articula uma série de ditos, cuja natureza e especificidade se encontra em sua utilidade, isto é, na possibilidade dos ditos selecionados serem apropriados e empregados na perspectiva dos interesses agendados. Em terceiro lugar, que o conteúdo das coisas ditas não tem valor em si, ou seja, não importa que o que esteja sendo dito pelo falante pragmático seja verdadeiro ou falso, real ou imaginário, certo ou errado, permitido ou proibido, normal ou louco, racional ou emocional. A relevância ou não do conteúdo dito é avaliada, medida e valorada em função de sua utilidade, isto é, de sua eficiência e eficácia na execução dos fins estabelecidos e anunciados. Em quarto lugar, que o falante pragmático não tem nenhum comprometimento e responsabilidade com o dizer ético e sincero, verdadeiro e edificante. 

Além desses aspectos, nota-se, também, que a fala pragmática traz à luz outros elementos significativos, a exemplo de sua forte tendência de construir vínculos com fins subjetivos e de fazer uso de procedimentos argumentativos interpretativos. A subjetividade e a interpretação tornam-se, nesse sentido, um terreno fértil para o aparecimento e a proliferação dos ditos pragmáticos. 

Do ponto de vista subjetivo, qualquer interesse pode ser justificado e legitimado, ou seja, erigido como significativo e pleno de sentido. Aqui, encontram-se os mais variados tipos de fins subjetivos, a exemplo dos baseados em preferências, biografias pessoais, tradições culturais, sectarismos religiosos assumidos, tendências científicas dominantes, fidelidades políticas e filosofias de vida. Do ponto de vista interpretativo, qualquer conteúdo pode ser considerado relevante e válido, desde que seja útil à produção do convencimento e à defesa do interesse em jogo, seja ele constituído de saberes resultantes da vivência, de mitos e lendas consagrados, de revelações consideradas sagradas, de conhecimentos científicos cristalizados, de ideologias compartilhadas e concepções políticas aceitas, de normas jurídicas asseguradas ou de narrativas literárias e imaginárias circulantes.

Com efeito, verifica-se que as falas pragmáticas, hegemônicas em nossa sociedade, possibilitam a constatação, de um lado, da subjetividade como uma das fontes do aparecimento de fins pragmáticos, de outro, da interpretação como uma ferramenta apropriada ao jogo argumentativo e conversacional pragmáticos. Fonte e ferramenta do dizer pragmático, da criação e da proliferação infinita dos ditos pragmáticos, a subjetividade e a interpretação se ligam entre si, integrando e compondo, tecendo e consolidando o modo de existência próprio do dizer pragmático.


João Pessoa, 28 de fevereiro de 2015

sábado, 31 de janeiro de 2015

O DITO E O DIZER PRAGMÁTICO I



Por Erenildo J. C.

Tenho refletido, nos escritos anteriores, sobre a região da linguagem designada de dizeres e ditos. Tal região vem à luz, isto é, ganha existência e inteligibilidade através da fala. Por meio dela, ou seja, da articulação de séries significativas de som, o sujeito falante, ‘ao dizer algo sobre alguma coisa’, proporciona ao sujeito ouvinte o registro simultâneo da maneira como diz, isto é, do modo como argumenta, profere, pronuncia e formula o conteúdo das coisas ditas, assim como o sujeito efetiva, concretiza, objetiva e materializa, foneticamente, por meio de sintagmas, frases, assertivas e formulações diversas e determinadas, o significado, o sentido, o saber e o entendimento que possui, assume, escolhe, valora e aciona em sua fala. 

Em função disso, torna-se possível, de um lado, identificar e analisar, nas falas dos sujeitos falantes e dos ouvintes, que o dizer (o modo) e o dito (a formulação) são coisas distintas tanto quanto dois aspectos inseparáveis, ontológicos da fala.

De outro, permite que seja realizada a investigação e a análise, desses constituintes da linguagem, nas conversas, nos diálogos, nos debates, em suma, no agir comunicativo estabelecido entre sujeitos falantes e ouvintes, emissores e receptores, situados em tempos e lugares sociais distintos e diversos.

Quando consideramos esse pressuposto como correto, abre-se um campo de observação, reflexão, estudo e pesquisa sobre o dizer e o dito, enquanto duplos inseparáveis da linguagem. Assim, ao nos dispormos conhecê-los, isto é, a ouvir os sujeitos falantes concretos no cotidiano, situados em diferentes espaços formais e não formais, a exemplo das escolas, das mídias, das instituições religiosas, dos partidos políticos, dos espaços governamentais, da sociedade civil organizada e da iniciativa privada, poderemos confirmar e conhecer a existência dos dizeres responsáveis pela produção e proliferação de séries peculiares de ditos, grávidos de formulações específicas, de delimitações e articulações determinadas entre dizeres e ditos particulares, a exemplo dos pragmáticos. 

Ao longo das análises empreendidas sobre as falas cotidianas, tenho encontrado constantemente com ditos, produzidos por ‘um modo de dizer as coisas’, totalmente descomprometidos e sem responsabilidades éticas, profundamente despreocupados com questões relativas à verdade ou à falsidade, ao normal ou ao anormal, ao certo ou ao errado, ao possível ou ao impossível, ao real ou ao imaginário. Tenho constatado que as coisas ditas, produzidas no universo desse dizer, são acionadas e mobilizadas, articuladas, significadas e ressignificadas, construídas e desconstruídas, negadas e afirmadas, valorizadas e silenciadas, desde que sejam úteis aos objetivos do sujeito falante, desde que sejam eficientes para realizar o fim proposto e desejado por ele.

Devido a centralidade que os referidos ditos e dizeres conferem a utilidade e a eficiência das coisas ditas e a função que seu conteúdo e suas estratégias têm no convencimento dos sujeitos ouvintes, no que tange aos fins pretendidos pelo sujeito falante, podemos identificá-lo e nomeá-lo como pragmático. 

Por conseguinte, pode-se dizer, resumidamente, que o dizer e o dito pragmático desenham uma espécie de fala que advoga a favor de interesses determinados. Em face desses interesses, os ditos e os dizeres mobilizam, articulam e empregam uma série de elementos úteis, sejam eles verdadeiros ou falsos, certos ou errados, permitidos ou proibidos, loucos ou normais, imaginários ou reais, desde que sejam coadjuvantes na efetividade do interesse em questão.

Os ditos e os dizeres pragmáticos são modalidades dos dizeres e ditos retóricos, já tratados em um escrito anterior. Considerando a presença intensa e diversa dos ditos e dizeres pragmáticos, de sua forte presença no agir comunicativo dos sujeitos falantes encontrados em diversas situações de conversação do cotidiano, arrisco-me a formular a hipótese de que vivemos sob a égide da hegemonia do signo de falas pragmáticas.

A tomada de consciência desse acontecimento sugere que o sujeito ouvinte desenvolva uma escuta vigilante, crítica e duvidosa seja com relação ao conteúdo e às estratégias, seja com relação à sinceridade e aos propósitos dos sujeitos falantes. 

Portanto, o reconhecimento desse fato cultural da comunicação contemporânea exige uma escuta reflexiva e crítica em relação às formulações pragmáticas difundidas por meio de pronunciamentos políticos, de propagandas que visam o consumo de bens e serviços, de pregações e anúncios religiosos, que objetivam a conversão e o governo dos indivíduos, de notícias postas em circulação pelas redes sociais e midiáticas que visão a formação de uma opinião pública sobre certos assuntos, assim como por meio de falas comuns, aparentemente inocentes, realizadas nas conversas diárias.



João Pessoa, 31 de janeiro de 2015.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

DITOS RELIGIOSOS IV



Por Erenildo João Carlos


Nesse texto, objetivo complementar as reflexões anteriores sobre os ditos religiosos, assinalando achados já mencionados, e acrescentando outros à análise empreendida sobre a especificidade do modo de existência dos ditos e do funcionamento dos dizeres genuinamente religiosos.

Em primeiro lugar, uma questão de procedimento. Nossa investigação toma as falas casuais do cotidiano, como a fonte do exercício de escavação dos ditos e dos dizeres. Entendemos que os registros orais, mais precisamente, as falas se configuram como uma fonte rica de informações. Portanto, ouvi-las e observá-las atentamente, analisar seu conteúdo, adentrar no universo de seus elementos e combinações constituintes, descrever suas regras de funcionamentos, cria, sem sombra de dúvida, um campo de possibilidades de investigações, não somente sobre a diversidade de aspectos presentes no conteúdo, que os ditos circulam, como sobre a maneira de ser e funcionar do modo operandi de seu dizer. Tais reflexões e investigações, quando produzidas, de forma sistemática e rigorosa, podem problematizar uma série de saberes e de práticas sobre a linguagem, sobre a constituição da subjetividade dos indivíduos, seu modo de conceber e se relacionar consigo, com o outro e com o mundo. Os registros orais, com efeito, se configuram como uma via de construção de saberes específicos sobre o tecido cultural que organiza as relações sociais vigentes e dominantes, que desenha falas e dizeres possíveis.

Em segundo lugar, os registros orais, presentes nas falas cotidianas dos indivíduos, são tratados como mediação. Através de suas formulações (proferimentos, afirmações, comentários, anúncios, saberes...) podemos acessar os ditos e os dizeres praticados efetivamente, que, de certo modo, integram o processo cultural de produção capilar da circulação do conteúdo constituinte da subjetividade e da individualidade de indivíduos determinados, a exemplo do universo cultural composto pelas concepções de mundo, pelas regras de conivências, pelos princípios, padrões de conduta aceitos, modos de relações estruturados e organizados, a partir de valores positivados socialmente. 

Em terceiro lugar, os ditos e dizeres religiosos sinalizam que vivemos em uma sociedade que valoriza positivamente os artefatos culturais religiosos. Assim sendo, eles (ditos e dizeres) servem como fonte de informações sobre uma série de saberes religiosos, já cristalizados, objetivados e materializados em condutas, vivências, atos, gestos, práticas, rituais e textos institucionalizados, que reproduzem uma espécie de subjetividade e de individualidade, para o bem ou para o mau, pautada no critério da crença (parâmetro fundamental de produção e articulação dos artefatos culturais religiosos). 

Em quarto lugar, os ditos religiosos, circulantes em lugares e tempos diferentes, em circunstâncias e situações diversas, evidenciam um fato: a individualidade e a subjetividade religiosas são tecidas a partir de, pelo menos, três posições específicas: a primeira posição é a do indivíduo comum, sem vínculo confessional, que orienta seus saberes, consciência e conduta; suas decisões, seus sentidos de vida e seus relacionamentos consigo mesmo, com o mundo e com as outras pessoas a partir do parâmetro da crença; a segunda posição é do devoto, ocupada pelo indivíduo que professa uma determinada fé religiosa, e que, em função dela, esforça-se por adequar sua individualidade e subjetividade aos valores e doutrinas instituídos no e pelo campo religioso escolhido; e, por último, a posição do teólogo, acolhida pelo indivíduo responsável, comprometido e militante, que trabalha cuidadosamente na feitura do desenho discursivo, ideológico e doutrinário da crença em questão. Desenho que fundamenta, justifica e explicita a existência e o funcionamento das concepções religiosas, adotadas na vida das pessoas e da sociedade. Em resumo: as três posições encontradas foram: a do crente comum, que regra sua vida a partir do critério do ´creio logo existe´; a do devoto, que professa uma fé determinada como ‘único caminho, verdade e vida´; e a do teólogo, que estuda, sistematiza e produz um conjunto de argumentos racionais, ideológicos e pragmáticos, necessários ao reconhecimento da crença valorada positivamente e do convencimento das pessoas. 

Em quinto lugar, os três tipos de posições religiosas mencionadas, associadas à institucionalização da diversidade cultural das crenças religiosas positivadas, acabam pondo em circulação e reproduzindo, de modo capilar, o modo de existência singular dos ditos e dizeres religiosos, de um lado, pela formação de individualidades e subjetividades religiosas, de outro, pelo desenvolvimento e refinamento do arcabouço argumentativo erigidos como fundamento, justificava e legitimidade do conteúdo e da forma de uma crença determinada. A versão mais acabada desse processo ocorre quando uma entidade supra-humana, metafisica, transcendental é posta como o fundamento da crença em questão. Fecha-se, assim, o circuito argumentativo-teológico. Quando isso ocorre, temos o parâmetro, por excelência, da produção das falas genuinamente religiosas, que vinculam tanto o sentido e a razão, o começo e o fim da existência, da vida e do mundo, assim como o sofrimento e a felicidade, a produção e a reprodução dos acontecimentos existenciais e históricos, à vontade de um ser supremo.

Em sexto lugar, a assunção de uma entidade transcendental, como o fundamento último da crença religiosa, propicia o aparecimento e a proliferação dos ditos religiosos em sua forma mais pura, específica, plena e genuína. Em outras palavras, quando o dizer religioso dobra-se sobre si mesmo, operando a separação entre os elementos constitutivos de sua existência, a saber, os elementos da realidade e da transcendência, rejeitando o primeiro em função do segundo, o real deixa de ser o critério de aferimento da valorização positiva das coisas e, consequentemente, da crença compartilhada. Com efeito, quando esse acontecimento é produzido no âmbito do dizer religioso, anuncia-se o advento de um território transfigurado, ausente de realidade, vazio de referência, de remissão ao mundo natural e humano. Nesse lugar, a transcendência-simulacro reina e governa, exigindo o abandono, o distanciamento e a renúncia do real das falas dos interlocutores religiosos. Nesse território sagrado do dizer religioso genuíno, a entidade supra-humana e a transcendência-simulacro fundam o sentido, o valor e a verdade, definidoras do contorno das fronteiras do conteúdo e da forma das coisas ditas religiosas. 

Em sétimo lugar, a existência de um lugar vazio de realidade, das ´coisas do mundo´, erige o terreno fértil do dizer religioso, que propicia o aparecimento e o cultivo de diferentes tipos e gêneros de crenças. Ao se distanciar do real, cria-se um campo de possibilidades de emergência de crenças fundadas na intuição, na imaginação e na fantasia: o dizer religioso orienta-se por uma crença que não mais se nutre do saber e do conhecimento. Desse modo, no lugar sagrado do dizer religioso genuíno, a realidade somente pode entrar se for convidada. Quando convidada, somente deve comparecer e permanecer se aceitar o que se crê como certo, correto, verdadeiro e significativo. Nesse lugar do dizer, a realidade somente é acessada e mobilizada na feitura dos ditos, após um processo rigoroso de censura, isto é, de purificação, de conversão e de transfiguração. No solo sagrado da conversação religiosa o sujeito falante e o ouvinte devem aceitar, como rito de passagem e de inserção na comunidade religiosa, o sacrifício e a morte do real, como caminho de superação da ilusão e como via de iluminação da consciência.

Esperamos que as observações sistemáticas tecidas, a partir do material capturado nas falas casuais do cotidiano, e que a reflexão, a análise e a descrição efetivadas, aqui, colaborem para o despertar da curiosidade e do interesse pela realização de investigações e discussões sobre o funcionamento do modo singular de existência dos ditos e dizeres religiosos. 


João pessoa, 24 de novembro de 2014.

domingo, 26 de outubro de 2014

DITOS RELIGIOSOS III



Por Erenildo João Carlos


A realidade existencial, entendida, aqui, como uma série particular de fragmentos da totalidade das múltiplas e diversas experiências vividas cotidianamente pelo indivíduo e agrupamentos humanos, em contextos sociais e históricos específicos, ganha primazia nas considerações dos ditos religiosos. 

Nesse sentido, pode-se dizer que a realidade, como um acontecimento vivido, constitui o terreno empírico, o solo fecundo de onde brotam as necessidades, os desejos, os sonhos, as aspirações, as metas e os projetos de vida daqueles e daquelas que se reconhecem como religioso. Não tendo, nesse caso, nada de diferente de outros ditos que se apoiam na realidade para dizer o que querem dizer. A realidade é, portanto, o lugar de onde os ditos e dizeres religiosos retiram, extraem a matéria prima de parte de seu conteúdo. 

Desse modo, entende-se que sem o alicerce da rocha das coisas existentes, os ditos religiosos perderiam, em parte, seu significado, seu sentido, seu caráter de verdade e, consequentemente, a possibilidade de apresentar o que lhe é próprio, isto é, os valores que devem ser reconhecidos e aceitos como religiosos. Sem as coisas de fato existentes os ditos religiosos seriam palavras vazias, ocas, abstratas, sem sentido existencial, pertencentes ao mundo da fantasia, do faz de conta, a exemplo das coisas ditas, escritas e vistas no âmbito do domínio cinematográfico e literário. 

Com efeito, se consideramos, o real, isto é, o algo que de fato existe, como um dos conteúdos necessários à produção e à formulação de um determinado dito e dizer, a exemplo do religioso, encontramo-nos dispostos a aceitar o princípio de que não valeria apena dizer algo, se o que fosse dito e o modo de dizê-lo, não gerasse no outro a consciência de que o que está sendo dito, tivesse uma existência, de fato, efetiva e possível. Ou, inversamente, concordamos com a hipótese de que o que seja dito deverá ser dito de tal maneira que seja capaz de reproduzir na consciência do outro, pelo menos, uma representação imaginária com efeito de realidade. De modo que o outro, ao ouvir o que foi dito, seja convencido da realidade e da veracidade da mensagem anunciada. 

Estamos, assim, diante de um pressuposto que serve tanto para o dizer das coisas mais simples, próximas e familiares, como para o dizer das coisas mais complexas, distantes e estranhas! Sem fazer menção, sem ativar e articular o componente das coisas existentes, sejam elas naturais ou culturais, o dizer religioso perderia uma de suas principais forças de convencimento, de exercício de poder sobre a consciência, a vontade, a conduta, o cotidiano e os projetos de vida das pessoas! 

É em função do pressuposto de que o que está sendo dito seja real e verdadeiro que encontramos falas cotidianas, marcadas com o sentimento e a expectativa de que o que está sendo dito tem, de fato, sentido. Exemplos: ‘somente não ganha quem não joga’; ´o Brasil seria o favorito para conquistar a copa do mundo’; ‘o candidato X vencerá nas urnas’; ‘não se deve votar no candidato Y porque ele é corrupto’; ‘segundo a pesquisa feita a pedido de tal rede de televisão, o candidato Z será eleito’; devemos ‘consumir tal alimento, porque ele é saudável e nutritivo’; ‘a vida sedentária e ociosa é o motivo da origem de muitas doenças’; ‘a força do pensamento positivo cura’; ´a mente se libertará da ilusão do pecado ao se recitar ou se cantar tais palavras,’; ‘a crença em Deus é o sentido da vida’; ‘a vida se torna melhor estudando e trabalhando’; ‘as desigualdades capitalista serão superadas por meio da organização e da militância’; ‘comprando este ou aquele produto seremos felizes’; ‘fazendo o bem ao próximo, ocorrerá o mesmo conosco’ e ‘aqui se faz, aqui se paga’.

Esse conjunto de falas, exemplifica a presença de elementos de realidade que, combinada, associada e vinculada a algo anunciado, pode ou não acontecer, ter ou não ter referência na realidade. Exemplifica, também, que o modo como o dizer articula e constrói a junção entre os elementos presentes nas falas, geralmente, tem a pretensão de produzir, no ouvinte, um efeito de verdade, que, por sua vez, pretende conferir legitimidade, certeza e confiabilidade ao que está sendo dito.

Em uma conversação, ao ser ativado o sentido de realidade na consciência do outro, ou seja, quando o outro compartilha do que está sendo dito como algo verdadeiro, verifica-se, consequente, a possibilidade da aceitação de que o que está sendo dito tenha relevância. Nesse momento, ocorre uma experiência significativa: o algo que foi dito transcende sua existência empírica no seio do mundo como ‘algo em si mesmo’, e adquire um status de relevância ou importância no plano da consciência, do pensamento, da razão, do sentimento, do desejo, enfim, da subjetividade do indivíduo. 

Pode-se descrever a experiência desse acontecimento como uma espécie de transcendência: algo deixa de ser o que é ou parece ser, para se tornar outra coisa, em si mesma, ou para nós. Quando isto acontece, esse algo muda, ultrapassa, desloca seu status inicial, passando a ser outra coisa distinta do que era anteriormente. 

No caso específico da experiência da própria tomada de consciência da transcendência em nós, ou seja, da transformação do modo como nos relacionamos com aquela coisa existente, pode-se dizer que a transcendência acontece quando alcançamos um patamar de relação com a coisa existente a ponto de ela se apresentar para nós revestida de outro significado, sentido, valor. Nesse processo, parece até que a ‘coisa em si’ mudou, mas, ao fim e ao cabo, descobrimos que fomos nós que mudamos ao redimensionar nossa relação com ela, em face das coisas ditas que ouvimos. Em outras palavras, nossa consciência, em relação à ela, transcendeu do estado anterior para outro, a partir do modo diferente de relação que passamos a estabelecer com ela, pela mediação da conversa. 

Verifica-se que o dizer e os ditos religiosos realizam um modo particular de transcendência na consciência dos indivíduos falantes e ouvintes, em função do modo como estabelecem a vinculação entre o real e os outros elementos presentes na mensagem pronunciada. O modo singular da transcendência presente nos ditos religiosos consiste no fato de que o dizer religioso opera o reconhecimento da relevância das coisas, ou seja, atribui valor, significado e sentido as coisas existentes, por meio do redimensionamento da realidade a partir de diversos aspectos diferenciados e escolhidos, integrantes do universo do conteúdo da crença que falante e/ou ouvinte compartilha como certa e verdadeira. Assim, o real, seu conhecimento, seu reconhecimento e sua relevância aparecem nos ditos religiosos em grau, forma, intensidade e gênero em função do que o falante crê e de que o ouvinte deve ouvir. No dizer religioso, a crença apresenta-se como o critério determinante do processo de convencimento e de aceitação, produzido numa conversa. Em outras palavras, a transcendência religiosa pauta-se na valorização de algo a partir do apelo a fé, uma espécie de certeza daquilo que não se conhece de fato, mas que se crê que assim seja.

Ademais, nesse estágio de nossa investigação sobre o assunto em tela, pode-se dizer que embora a realidade e a transcendência apareçam como dois pilares fundamentais dos ditos religiosos, no jogo do dizer religioso, esses dois aspectos são vinculados, conectados, combinados, associados de modo tal que o conteúdo da mensagem transmitida ou comunicada seja capaz de afirmar, assinalar, de forma contundente e eficaz, algum ponto da crença compartilhada pelo indivíduo ou grupo social determinado. Nesse sentido, pode-se conceber a hipótese de que o binômio realidade-transcendência, presente nas falas religiosas, circulantes nas conversas cotidianas, produzidas em diversos lugares, tempos, situações e circunstâncias sociais, seria similar ao encontrado em mitos, lendas, narrativas e ensinamentos históricos que povoam o imaginário cultural religioso do povo brasileiro.


João Pessoa, 26 de outubro de 2014.

sábado, 26 de julho de 2014

DITOS RELIGIOSOS II


Por Erenildo João Carlos

O fato de constatar a presença dos ditos religiosos em registros e falas dos mais diversos tempos históricos, nos mais diferentes lugares culturais e espaços sociais de conversação, o fato de verificar a formulação e o pronunciamento dos ditos religiosos por diferentes tipos de indivíduos, sujeitos e instituições religiosas, sustenta a hipótese de que eles têm uma especificidade, que pode ser objeto de nossa reflexão, investigação e análise. 

As coisas ditas no cotidiano, movidas pelas regras do dizer religioso, possibilitam uma gama de pontos iniciais de reflexão e de conclusões sobre seu modo de existência, seu conteúdo, suas finalidades religiosas, teológicas, científicas, ideológicas, políticas, culturais, mercadológicas e educativas. Não obstante tamanha variedade de questões que podem ser formuladas, neste momento, pretendo dialogar sobre dois pontos fundamentais para a identificação e a descrição do dizer e dos ditos nomeados como religiosos, a saber os componentes ‘realidade’, que tratarei agora, e ‘transcendência’, que aprofundarei no próximo escrito (Ditos religiosos III).

Ao observar atenta e cuidadosamente o conteúdo das falas cotidianas identifiquei um fato: os ditos religiosos são grávidos de realidade, isto é, de um conteúdo tecido por fios significativos que acionam aspectos ligados às condições de existência do ser humano, em geral, ou do próprio falante, em particular. Realidade que a um só tempo expressa e representa algo necessário ou suposto como sendo; algo que, por isso mesmo, se torna desejado, almejado; algo que, com efeito, passa a ser assumido como um objeto sobre o qual se fala de um modo especial; algo que adquire um status, um valor, um grau de relevância peculiar. Realidade presente tanto nas falas cotidianas quanto nos arquivos dos ditos religiosos das religiões hegemônicas, indígenas e afrodescendentes, mencionados no escrito anterior.

Não é demais assinalar, sem especificar um dito religioso em particular cotidiano ou integrante da memória cultural, que o real valorado positivamente, presente nos ditos religiosos, pode expressar e representar múltiplas coisas; pode se vincular a diversas dimensões da existência imediata, cotidiana e histórica do indivíduo falante, assim como a determinado grupo e sociedade, estendendo-se até mesmo ao gênero humano. Exemplo disto poder ser algo relacionado à preservação da vida (alimentação, segurança, violência, morte ...), à cura do corpo (saúde, doença, remédio, exercícios físicos, cuidados, hábitos ...) ou à reprodução da espécie (casamento, sexualidade, procriação, fertilidade ...); a demandas sociais (família, emprego, moradia, lazer ...) e culturais (informações, saberes, conhecimento, ideologias, tradições, crenças, vivências ...); ou à subjetividade (preferências, gostos, inclinações, opiniões, desejos, prazeres, interesses, expectativas, perspectivas, sonhos, utopias ...).

O dizer e os ditos religiosos ao evidenciar algo do mundo real, ou seja, ao funcionar como uma espécie de consciência social que conferi visibilidade à necessidade de certas coisas, faz de uma maneira tal que imprime no objeto desejado e nos ditos sobre ele, um grau de importância tão elevado a ponto de decretar que a impossibilidade da aquisição e usufruto deste algo determinado seja considerado, concebido, sentido e tratado com um acontecimento capaz de pôr em risco a própria existência do sujeito, sua felicidade ou sentido de vida.

Com efeito, se o percurso da investigação empreendida estiver correto, conclui-se que: (a) os ditos religiosos se constituem, de um lado, de um conteúdo composto pelo real, de outro, de uma realidade valorizada positivamente; (b) acionar e mobilizar determinados aspectos da realidade, intencionalmente reconhecido como algo necessário e imprescindível a existência humana ou da natureza, por isso mesmo, posicionado e visto como algo de suma importância, consiste em uma das regras fundamentais do funcionamento do dizer religioso; (c) os ditos religiosos se apresentam como artefatos culturais que registram uma espécie de consciência acerca da necessidade ou da pretensa necessidade de algo para indivíduos, grupos, sociedades e gênero humano; por fim, que (d) embora a força de convencimento dos ditos religiosos resida precisamente no aspecto da realidade valorizada positivamente, este componente sem a dimensão da transcendência não é, por si só, suficiente para definir o dito nomeado religioso.

João Pessoa, 26 de julho de 2014.

domingo, 15 de junho de 2014

DITOS RELIGIOSOS I





Por Erenildo João Carlos

O entendimento de que os ditos religiosos circulam em nossas conversas cotidianas e institucionais brasileira há muito tempo parece ponto pacífico. Se escavarmos nossa memória histórica e cultural e observarmos cuidadosamente os artefatos culturais produzidos desde a chegada dos portugueses ao território da Vera Cruz, podemos afirmar que, dos escritos de Pero Vaz de Caminha aos recentes pronunciamentos do Papa Francisco no Brasil, vivemos sob a égide de uma concepção de mundo judaico-cristã, tecida e constituída por uma complexa rede de ditos religiosos. 

Não serão diferentes nossos achados sobre os ditos religiosos se vasculharmos os registros e arquivos da lembrança milenar que contam a história dos nativos de nossa terra colonizada, se adentrarmos no legado de suas tradições, relações e signos culturais, repletos de formulações mágicos e místicos, imaginários e supersticiosos. Provavelmente, encontraremos a presença dos ditos religiosos, a exemplo dos que aprendemos, desde criança, por meio dos mitos do Saci Pererê, da Cuca, do Curupira, do Boitatá, da Comadre Fulozinha, do Boto, da Alamoa e do Lobisomem. 

Se procedermos assim também com relação às lendas, às orações, aos cantos, às narrativas oriundos da cultura afrodescendente, descobriremos achados preciosos sobre os ditos religiosos que integram a herança cultural dos negros que chegaram ao Brasil por meio do tráfico, da troca e da venda dos corpos de homens e mulheres negros, explorados nas lavoras, minas e fábrica, segregados nas senzalas, espoliados de sua dignidade humana no país, durante séculos, como força de trabalho, mercadoria e objeto do prazer sexual dos mercenários, senhores de engenho e seus feitores. Corpos negros de homens e mulheres apropriados e utilizados como coisa, utensílios domésticos de famílias abastadas da monarquia imperial e da república brasileira emergente.

Embora este percurso reflexivo arqueológico do dizer aponte uma possibilidade de investigação interessante a ser empreendida, é bem verdade que não precisamos ir tão longe em nossa memória histórica, cultural e social para encontrarmos os ditos religiosos. Assim como também não necessitamos estabelecer um vínculo necessário entre o dito religioso e supostas personalidades dividas, teologias e religiões institucionalizadas. Em outras palavras, não é uma condição necessária para a reflexão e investigação do dizer e dos ditos religiosos realizarmos um movimento de retorno ao passado ou mergulharmos na escuta de falas presentes, proferidas nos territórios das instituições especificamente religiosas, para encontrarmos o artefato cultural dos ditos religiosos. 

Em última análise, os ditos religiosos não estão circunscritos aos registros das escrituras sagradas, às falas dos líderes religiosos, nem às conversações produzidas em seus espaços institucionais. Eles impregnam falas de diferentes tipos e sujeitos. Eles aparecem e tecem conversas cotidianas. Eles são acionados para fundamentar hipóteses, teses, diálogos e debates acadêmicos. Eles são utilizados para definirem o conteúdo de mensagens políticas de candidatos e de governantes. Eles conferem legitimidade a vários interesses e concepções ideológicas. Eles aparecem como elemento constituintes do jogo da linguagem publicitária, midiática e cinematográfica que move a indústria cultural e o mercado mundial. 

Em suma, pelo fato dos ditos religiosos serem um artefato cultural da fala cotidiana, podem ser facilmente encontrados nas coisas ditas nas conversas cotidianas das pessoas. Basta ouvirmos a fala daqueles e daquelas com as quais convivemos em casa, no trabalho, na escola! Basta ligarmos a televisão e ouvirmos o conteúdo das falas dos apresentadores dos programas das diversas agências! Basta escolhermos e assistirmos um filme qualquer, lermos um livro de nossa preferência que identificaremos sua presença! Basta escutarmos com atenção as músicas tocadas no sistema de rádio, as narrativas de alguma partida de futebol, uma peça de teatro, ou simplesmente nos dispormos a ouvirmos as conversas ocasionais e casuais da pessoas em uma fila de supermercado ou de banco, numa mesa de bar ou restaurante, numa loja, num salão de beleza, numa caminhada matinal, nas praças e shoppings do bairro ou cidades que encontraremos os ditos religiosos demarcando sua presença nas falas, indicando modos de conceber, interpretar e entender, assinalando desejos e sonhos, significando as ações e práticas, valorando e atribuindo sentido as coisas e aos gestos mais simples do dia-a-dia dos falantes. 

Tudo isto pode nos fazer refletir sobre a seguinte questão: se os ditos religiosos fazem parte da ordem do dia de nossas falas e conversas, se eles são tão produtivos e relevantes em nossa cultura, o que eles têm de específico em seu modo de existência?

domingo, 1 de junho de 2014

DITOS SECTÁRIOS II




Erenildo João Carlos

Ao se ouvir cuidadosamente as falas de interlocutores que conversam sobre religião, política, futebol e outros temas culturalmente relevantes no cotidiano, encontramos nas particularidades destas conversas e ditos, um modo de dizer comum, regular e geral, constituídos por uma série de elementos discursivos articulados, postos em funcionamento de uma maneira determinada. Neste processo de escavação, identifiquei a autorreferencialidade, o fechamento, a autodefesa, a autoafirmação e a autoconservação, como os principais constituintes do dizer sectário.

Parece-me que o modo singular de dispor as coisas que são ditas a partir destes cinco elementos evidencia uma espécie de regra, de modo de fazer existir as coisas ditas, de significá-la, de desencadeá-la, de relacioná-la no desenrolar da conversação. Regras não imediatamente audíveis, não aparentemente evidentes à consciência dos falantes e ouvintes concretos, mas presentes, postas e disponíveis em suas falas, operando como condições necessárias à formulação de uma série de ditos possíveis e específicos, que são acionados e colocados em circulação no curso da conversa. Em seu conjunto, estes elementos compõe o modo de dizer, aqui, nomeado de sectário.

Ao analisar os constituintes deste dizer, verifica-se que a fala sectária apresenta um modo de dizer que conduz o deslocamento da conversa em torno de pontos considerados centrais, com uma conotação fortemente acentuada pela autorreferência, a partir da qual a fala comunicada deverá convergir: o que se crê, se pensa, se deseja, se interessa, se prefere... Esta convergência instituída cria um campo de possibilidades, um território demarcado por limites e fronteiras, que determinam, ao fim e ao cabo, o aparecimento do como, do quando, do onde e do que deve ser dito no decorrer da conversa.

Com efeito, a autorreferencialidade define o conteúdo e a forma do dizer sectário. Em outras palavras, é no interior do campo de convergência autorrefenciado que a conversa instaurada escolhe seus ditos, que os pronunciamentos são tecidos e sustentados, que a argumentação deve ser construída e fundamentada, que se selecionam as alternativas do que se pretende dizer, do que pode ser dito, do que é permitido e adequado, do que é pertinente e relevante, do que é certo, correto e verdadeiro. O movimento realizado no espaço deste território determina a origem das alternativas possíveis de idas e vindas, de aproximações e distanciamentos, de esquecimentos e lembranças, de fugas e retornos, de subidas e decidas, de saídas e entradas, de desvios e contatos marcados pela fronteira do mesmo.

A conversação autorreferenciada evidencia uma trajetória movediça, indeterminada a priori. Em seu acontecer, ela pode ser circular e amena, linear e tensionada; pode ser abstrata e profunda, concreta e superficial. O fato primordial consiste, portanto, na escolha de estratégias adequadas, cuja meta é fazer com que a conversa possa sempre convergir para o ponto que se quer, que contenha seu próprio fundamento e suas próprias condições de existência. Que tenha um ´em si´ capaz de conferir ´a si´ o significado e a legitimidade necessários às coisas a serem ditas sobre ´si´. 

Nota-se, assim, que o dizer sectário configura-se por uma ordem de fala fechada em torno ´de si´, alimentada ´de si´, voltado ´para si´. Como um dizer que se autossegrega, confinado e encapsulado ´em si´, que simplesmente é, pelo fato de ser o que é. Este modo de ser autorreferenciado e fechado do dizer sectário desenvolve formas de autodefesa e de auto-afirmação, tendo em vista sua autoconservação, a exemplo do cuidado com a coerência, com a coesão e com a não contradição das coisas ditas.

Devido a impossibilidade social e cultural do fechamento e da autossegregação absoluta, o ´em si´ do sectário é confrontado com o ´em si´ do outro, do diferente, do estranho; os ditos e dizeres sectários entram em conflito com os ditos e dizeres dialógicos, ou seja, com aquele dizer que confere visibilidade a existência de múltiplos e diferentes modos de pensar, crer, desejar, preferir, perceber, imaginar, saber, entender, viver e ser, presentes nas falas cotidianas, nas conversações instauradas em torno dos temas problematizados, seja pela casualidade ou seja pela intencionalidade dos encontros que acontecem entre os interlocutores que convivem nos diversos espaços de conversação existentes na sociedade.

O encontro com ´o si do outro´, diferente do ´si do sectário´, põe em risco o equilíbrio e a ordem vigente dos ditos sectários. Ao sentir sua concepção de mundo ameaçada pelo outro, o dizer sectário coloca-se em pé de guerra, parte para a defesa de seus paradigmas. Fazendo da conversa com o outro, uma oportunidade de afirmação radical ´de si´, de auto defesa e de autoafirmação do campo de convergência que autorreferência.

Parece-me que o fato de nos encontramos imersos na cultura hegemônica do sectarismo aponta uma possível resposta para a constatação da existência de conversas cotidianas tecidas pelo signo do desencontro, do confronto e do conflito, marcada pelo viés de uma dialética da interdição, que bloqueiam o exercício do diálogo e do agir comunicativo edificante entre os diferentes, orientados pelo parâmetro do entendimento, da boa vizinhança e do desenvolvimento ético comum, ao abordarem temas culturais, tão importantes para o povo brasileiro, como o da religião, da política do futebol.