domingo, 26 de outubro de 2014

DITOS RELIGIOSOS III



Por Erenildo João Carlos


A realidade existencial, entendida, aqui, como uma série particular de fragmentos da totalidade das múltiplas e diversas experiências vividas cotidianamente pelo indivíduo e agrupamentos humanos, em contextos sociais e históricos específicos, ganha primazia nas considerações dos ditos religiosos. 

Nesse sentido, pode-se dizer que a realidade, como um acontecimento vivido, constitui o terreno empírico, o solo fecundo de onde brotam as necessidades, os desejos, os sonhos, as aspirações, as metas e os projetos de vida daqueles e daquelas que se reconhecem como religioso. Não tendo, nesse caso, nada de diferente de outros ditos que se apoiam na realidade para dizer o que querem dizer. A realidade é, portanto, o lugar de onde os ditos e dizeres religiosos retiram, extraem a matéria prima de parte de seu conteúdo. 

Desse modo, entende-se que sem o alicerce da rocha das coisas existentes, os ditos religiosos perderiam, em parte, seu significado, seu sentido, seu caráter de verdade e, consequentemente, a possibilidade de apresentar o que lhe é próprio, isto é, os valores que devem ser reconhecidos e aceitos como religiosos. Sem as coisas de fato existentes os ditos religiosos seriam palavras vazias, ocas, abstratas, sem sentido existencial, pertencentes ao mundo da fantasia, do faz de conta, a exemplo das coisas ditas, escritas e vistas no âmbito do domínio cinematográfico e literário. 

Com efeito, se consideramos, o real, isto é, o algo que de fato existe, como um dos conteúdos necessários à produção e à formulação de um determinado dito e dizer, a exemplo do religioso, encontramo-nos dispostos a aceitar o princípio de que não valeria apena dizer algo, se o que fosse dito e o modo de dizê-lo, não gerasse no outro a consciência de que o que está sendo dito, tivesse uma existência, de fato, efetiva e possível. Ou, inversamente, concordamos com a hipótese de que o que seja dito deverá ser dito de tal maneira que seja capaz de reproduzir na consciência do outro, pelo menos, uma representação imaginária com efeito de realidade. De modo que o outro, ao ouvir o que foi dito, seja convencido da realidade e da veracidade da mensagem anunciada. 

Estamos, assim, diante de um pressuposto que serve tanto para o dizer das coisas mais simples, próximas e familiares, como para o dizer das coisas mais complexas, distantes e estranhas! Sem fazer menção, sem ativar e articular o componente das coisas existentes, sejam elas naturais ou culturais, o dizer religioso perderia uma de suas principais forças de convencimento, de exercício de poder sobre a consciência, a vontade, a conduta, o cotidiano e os projetos de vida das pessoas! 

É em função do pressuposto de que o que está sendo dito seja real e verdadeiro que encontramos falas cotidianas, marcadas com o sentimento e a expectativa de que o que está sendo dito tem, de fato, sentido. Exemplos: ‘somente não ganha quem não joga’; ´o Brasil seria o favorito para conquistar a copa do mundo’; ‘o candidato X vencerá nas urnas’; ‘não se deve votar no candidato Y porque ele é corrupto’; ‘segundo a pesquisa feita a pedido de tal rede de televisão, o candidato Z será eleito’; devemos ‘consumir tal alimento, porque ele é saudável e nutritivo’; ‘a vida sedentária e ociosa é o motivo da origem de muitas doenças’; ‘a força do pensamento positivo cura’; ´a mente se libertará da ilusão do pecado ao se recitar ou se cantar tais palavras,’; ‘a crença em Deus é o sentido da vida’; ‘a vida se torna melhor estudando e trabalhando’; ‘as desigualdades capitalista serão superadas por meio da organização e da militância’; ‘comprando este ou aquele produto seremos felizes’; ‘fazendo o bem ao próximo, ocorrerá o mesmo conosco’ e ‘aqui se faz, aqui se paga’.

Esse conjunto de falas, exemplifica a presença de elementos de realidade que, combinada, associada e vinculada a algo anunciado, pode ou não acontecer, ter ou não ter referência na realidade. Exemplifica, também, que o modo como o dizer articula e constrói a junção entre os elementos presentes nas falas, geralmente, tem a pretensão de produzir, no ouvinte, um efeito de verdade, que, por sua vez, pretende conferir legitimidade, certeza e confiabilidade ao que está sendo dito.

Em uma conversação, ao ser ativado o sentido de realidade na consciência do outro, ou seja, quando o outro compartilha do que está sendo dito como algo verdadeiro, verifica-se, consequente, a possibilidade da aceitação de que o que está sendo dito tenha relevância. Nesse momento, ocorre uma experiência significativa: o algo que foi dito transcende sua existência empírica no seio do mundo como ‘algo em si mesmo’, e adquire um status de relevância ou importância no plano da consciência, do pensamento, da razão, do sentimento, do desejo, enfim, da subjetividade do indivíduo. 

Pode-se descrever a experiência desse acontecimento como uma espécie de transcendência: algo deixa de ser o que é ou parece ser, para se tornar outra coisa, em si mesma, ou para nós. Quando isto acontece, esse algo muda, ultrapassa, desloca seu status inicial, passando a ser outra coisa distinta do que era anteriormente. 

No caso específico da experiência da própria tomada de consciência da transcendência em nós, ou seja, da transformação do modo como nos relacionamos com aquela coisa existente, pode-se dizer que a transcendência acontece quando alcançamos um patamar de relação com a coisa existente a ponto de ela se apresentar para nós revestida de outro significado, sentido, valor. Nesse processo, parece até que a ‘coisa em si’ mudou, mas, ao fim e ao cabo, descobrimos que fomos nós que mudamos ao redimensionar nossa relação com ela, em face das coisas ditas que ouvimos. Em outras palavras, nossa consciência, em relação à ela, transcendeu do estado anterior para outro, a partir do modo diferente de relação que passamos a estabelecer com ela, pela mediação da conversa. 

Verifica-se que o dizer e os ditos religiosos realizam um modo particular de transcendência na consciência dos indivíduos falantes e ouvintes, em função do modo como estabelecem a vinculação entre o real e os outros elementos presentes na mensagem pronunciada. O modo singular da transcendência presente nos ditos religiosos consiste no fato de que o dizer religioso opera o reconhecimento da relevância das coisas, ou seja, atribui valor, significado e sentido as coisas existentes, por meio do redimensionamento da realidade a partir de diversos aspectos diferenciados e escolhidos, integrantes do universo do conteúdo da crença que falante e/ou ouvinte compartilha como certa e verdadeira. Assim, o real, seu conhecimento, seu reconhecimento e sua relevância aparecem nos ditos religiosos em grau, forma, intensidade e gênero em função do que o falante crê e de que o ouvinte deve ouvir. No dizer religioso, a crença apresenta-se como o critério determinante do processo de convencimento e de aceitação, produzido numa conversa. Em outras palavras, a transcendência religiosa pauta-se na valorização de algo a partir do apelo a fé, uma espécie de certeza daquilo que não se conhece de fato, mas que se crê que assim seja.

Ademais, nesse estágio de nossa investigação sobre o assunto em tela, pode-se dizer que embora a realidade e a transcendência apareçam como dois pilares fundamentais dos ditos religiosos, no jogo do dizer religioso, esses dois aspectos são vinculados, conectados, combinados, associados de modo tal que o conteúdo da mensagem transmitida ou comunicada seja capaz de afirmar, assinalar, de forma contundente e eficaz, algum ponto da crença compartilhada pelo indivíduo ou grupo social determinado. Nesse sentido, pode-se conceber a hipótese de que o binômio realidade-transcendência, presente nas falas religiosas, circulantes nas conversas cotidianas, produzidas em diversos lugares, tempos, situações e circunstâncias sociais, seria similar ao encontrado em mitos, lendas, narrativas e ensinamentos históricos que povoam o imaginário cultural religioso do povo brasileiro.


João Pessoa, 26 de outubro de 2014.

sábado, 26 de julho de 2014

DITOS RELIGIOSOS II


Por Erenildo João Carlos

O fato de constatar a presença dos ditos religiosos em registros e falas dos mais diversos tempos históricos, nos mais diferentes lugares culturais e espaços sociais de conversação, o fato de verificar a formulação e o pronunciamento dos ditos religiosos por diferentes tipos de indivíduos, sujeitos e instituições religiosas, sustenta a hipótese de que eles têm uma especificidade, que pode ser objeto de nossa reflexão, investigação e análise. 

As coisas ditas no cotidiano, movidas pelas regras do dizer religioso, possibilitam uma gama de pontos iniciais de reflexão e de conclusões sobre seu modo de existência, seu conteúdo, suas finalidades religiosas, teológicas, científicas, ideológicas, políticas, culturais, mercadológicas e educativas. Não obstante tamanha variedade de questões que podem ser formuladas, neste momento, pretendo dialogar sobre dois pontos fundamentais para a identificação e a descrição do dizer e dos ditos nomeados como religiosos, a saber os componentes ‘realidade’, que tratarei agora, e ‘transcendência’, que aprofundarei no próximo escrito (Ditos religiosos III).

Ao observar atenta e cuidadosamente o conteúdo das falas cotidianas identifiquei um fato: os ditos religiosos são grávidos de realidade, isto é, de um conteúdo tecido por fios significativos que acionam aspectos ligados às condições de existência do ser humano, em geral, ou do próprio falante, em particular. Realidade que a um só tempo expressa e representa algo necessário ou suposto como sendo; algo que, por isso mesmo, se torna desejado, almejado; algo que, com efeito, passa a ser assumido como um objeto sobre o qual se fala de um modo especial; algo que adquire um status, um valor, um grau de relevância peculiar. Realidade presente tanto nas falas cotidianas quanto nos arquivos dos ditos religiosos das religiões hegemônicas, indígenas e afrodescendentes, mencionados no escrito anterior.

Não é demais assinalar, sem especificar um dito religioso em particular cotidiano ou integrante da memória cultural, que o real valorado positivamente, presente nos ditos religiosos, pode expressar e representar múltiplas coisas; pode se vincular a diversas dimensões da existência imediata, cotidiana e histórica do indivíduo falante, assim como a determinado grupo e sociedade, estendendo-se até mesmo ao gênero humano. Exemplo disto poder ser algo relacionado à preservação da vida (alimentação, segurança, violência, morte ...), à cura do corpo (saúde, doença, remédio, exercícios físicos, cuidados, hábitos ...) ou à reprodução da espécie (casamento, sexualidade, procriação, fertilidade ...); a demandas sociais (família, emprego, moradia, lazer ...) e culturais (informações, saberes, conhecimento, ideologias, tradições, crenças, vivências ...); ou à subjetividade (preferências, gostos, inclinações, opiniões, desejos, prazeres, interesses, expectativas, perspectivas, sonhos, utopias ...).

O dizer e os ditos religiosos ao evidenciar algo do mundo real, ou seja, ao funcionar como uma espécie de consciência social que conferi visibilidade à necessidade de certas coisas, faz de uma maneira tal que imprime no objeto desejado e nos ditos sobre ele, um grau de importância tão elevado a ponto de decretar que a impossibilidade da aquisição e usufruto deste algo determinado seja considerado, concebido, sentido e tratado com um acontecimento capaz de pôr em risco a própria existência do sujeito, sua felicidade ou sentido de vida.

Com efeito, se o percurso da investigação empreendida estiver correto, conclui-se que: (a) os ditos religiosos se constituem, de um lado, de um conteúdo composto pelo real, de outro, de uma realidade valorizada positivamente; (b) acionar e mobilizar determinados aspectos da realidade, intencionalmente reconhecido como algo necessário e imprescindível a existência humana ou da natureza, por isso mesmo, posicionado e visto como algo de suma importância, consiste em uma das regras fundamentais do funcionamento do dizer religioso; (c) os ditos religiosos se apresentam como artefatos culturais que registram uma espécie de consciência acerca da necessidade ou da pretensa necessidade de algo para indivíduos, grupos, sociedades e gênero humano; por fim, que (d) embora a força de convencimento dos ditos religiosos resida precisamente no aspecto da realidade valorizada positivamente, este componente sem a dimensão da transcendência não é, por si só, suficiente para definir o dito nomeado religioso.

João Pessoa, 26 de julho de 2014.

domingo, 15 de junho de 2014

DITOS RELIGIOSOS I





Por Erenildo João Carlos

O entendimento de que os ditos religiosos circulam em nossas conversas cotidianas e institucionais brasileira há muito tempo parece ponto pacífico. Se escavarmos nossa memória histórica e cultural e observarmos cuidadosamente os artefatos culturais produzidos desde a chegada dos portugueses ao território da Vera Cruz, podemos afirmar que, dos escritos de Pero Vaz de Caminha aos recentes pronunciamentos do Papa Francisco no Brasil, vivemos sob a égide de uma concepção de mundo judaico-cristã, tecida e constituída por uma complexa rede de ditos religiosos. 

Não serão diferentes nossos achados sobre os ditos religiosos se vasculharmos os registros e arquivos da lembrança milenar que contam a história dos nativos de nossa terra colonizada, se adentrarmos no legado de suas tradições, relações e signos culturais, repletos de formulações mágicos e místicos, imaginários e supersticiosos. Provavelmente, encontraremos a presença dos ditos religiosos, a exemplo dos que aprendemos, desde criança, por meio dos mitos do Saci Pererê, da Cuca, do Curupira, do Boitatá, da Comadre Fulozinha, do Boto, da Alamoa e do Lobisomem. 

Se procedermos assim também com relação às lendas, às orações, aos cantos, às narrativas oriundos da cultura afrodescendente, descobriremos achados preciosos sobre os ditos religiosos que integram a herança cultural dos negros que chegaram ao Brasil por meio do tráfico, da troca e da venda dos corpos de homens e mulheres negros, explorados nas lavoras, minas e fábrica, segregados nas senzalas, espoliados de sua dignidade humana no país, durante séculos, como força de trabalho, mercadoria e objeto do prazer sexual dos mercenários, senhores de engenho e seus feitores. Corpos negros de homens e mulheres apropriados e utilizados como coisa, utensílios domésticos de famílias abastadas da monarquia imperial e da república brasileira emergente.

Embora este percurso reflexivo arqueológico do dizer aponte uma possibilidade de investigação interessante a ser empreendida, é bem verdade que não precisamos ir tão longe em nossa memória histórica, cultural e social para encontrarmos os ditos religiosos. Assim como também não necessitamos estabelecer um vínculo necessário entre o dito religioso e supostas personalidades dividas, teologias e religiões institucionalizadas. Em outras palavras, não é uma condição necessária para a reflexão e investigação do dizer e dos ditos religiosos realizarmos um movimento de retorno ao passado ou mergulharmos na escuta de falas presentes, proferidas nos territórios das instituições especificamente religiosas, para encontrarmos o artefato cultural dos ditos religiosos. 

Em última análise, os ditos religiosos não estão circunscritos aos registros das escrituras sagradas, às falas dos líderes religiosos, nem às conversações produzidas em seus espaços institucionais. Eles impregnam falas de diferentes tipos e sujeitos. Eles aparecem e tecem conversas cotidianas. Eles são acionados para fundamentar hipóteses, teses, diálogos e debates acadêmicos. Eles são utilizados para definirem o conteúdo de mensagens políticas de candidatos e de governantes. Eles conferem legitimidade a vários interesses e concepções ideológicas. Eles aparecem como elemento constituintes do jogo da linguagem publicitária, midiática e cinematográfica que move a indústria cultural e o mercado mundial. 

Em suma, pelo fato dos ditos religiosos serem um artefato cultural da fala cotidiana, podem ser facilmente encontrados nas coisas ditas nas conversas cotidianas das pessoas. Basta ouvirmos a fala daqueles e daquelas com as quais convivemos em casa, no trabalho, na escola! Basta ligarmos a televisão e ouvirmos o conteúdo das falas dos apresentadores dos programas das diversas agências! Basta escolhermos e assistirmos um filme qualquer, lermos um livro de nossa preferência que identificaremos sua presença! Basta escutarmos com atenção as músicas tocadas no sistema de rádio, as narrativas de alguma partida de futebol, uma peça de teatro, ou simplesmente nos dispormos a ouvirmos as conversas ocasionais e casuais da pessoas em uma fila de supermercado ou de banco, numa mesa de bar ou restaurante, numa loja, num salão de beleza, numa caminhada matinal, nas praças e shoppings do bairro ou cidades que encontraremos os ditos religiosos demarcando sua presença nas falas, indicando modos de conceber, interpretar e entender, assinalando desejos e sonhos, significando as ações e práticas, valorando e atribuindo sentido as coisas e aos gestos mais simples do dia-a-dia dos falantes. 

Tudo isto pode nos fazer refletir sobre a seguinte questão: se os ditos religiosos fazem parte da ordem do dia de nossas falas e conversas, se eles são tão produtivos e relevantes em nossa cultura, o que eles têm de específico em seu modo de existência?

domingo, 1 de junho de 2014

DITOS SECTÁRIOS II




Erenildo João Carlos

Ao se ouvir cuidadosamente as falas de interlocutores que conversam sobre religião, política, futebol e outros temas culturalmente relevantes no cotidiano, encontramos nas particularidades destas conversas e ditos, um modo de dizer comum, regular e geral, constituídos por uma série de elementos discursivos articulados, postos em funcionamento de uma maneira determinada. Neste processo de escavação, identifiquei a autorreferencialidade, o fechamento, a autodefesa, a autoafirmação e a autoconservação, como os principais constituintes do dizer sectário.

Parece-me que o modo singular de dispor as coisas que são ditas a partir destes cinco elementos evidencia uma espécie de regra, de modo de fazer existir as coisas ditas, de significá-la, de desencadeá-la, de relacioná-la no desenrolar da conversação. Regras não imediatamente audíveis, não aparentemente evidentes à consciência dos falantes e ouvintes concretos, mas presentes, postas e disponíveis em suas falas, operando como condições necessárias à formulação de uma série de ditos possíveis e específicos, que são acionados e colocados em circulação no curso da conversa. Em seu conjunto, estes elementos compõe o modo de dizer, aqui, nomeado de sectário.

Ao analisar os constituintes deste dizer, verifica-se que a fala sectária apresenta um modo de dizer que conduz o deslocamento da conversa em torno de pontos considerados centrais, com uma conotação fortemente acentuada pela autorreferência, a partir da qual a fala comunicada deverá convergir: o que se crê, se pensa, se deseja, se interessa, se prefere... Esta convergência instituída cria um campo de possibilidades, um território demarcado por limites e fronteiras, que determinam, ao fim e ao cabo, o aparecimento do como, do quando, do onde e do que deve ser dito no decorrer da conversa.

Com efeito, a autorreferencialidade define o conteúdo e a forma do dizer sectário. Em outras palavras, é no interior do campo de convergência autorrefenciado que a conversa instaurada escolhe seus ditos, que os pronunciamentos são tecidos e sustentados, que a argumentação deve ser construída e fundamentada, que se selecionam as alternativas do que se pretende dizer, do que pode ser dito, do que é permitido e adequado, do que é pertinente e relevante, do que é certo, correto e verdadeiro. O movimento realizado no espaço deste território determina a origem das alternativas possíveis de idas e vindas, de aproximações e distanciamentos, de esquecimentos e lembranças, de fugas e retornos, de subidas e decidas, de saídas e entradas, de desvios e contatos marcados pela fronteira do mesmo.

A conversação autorreferenciada evidencia uma trajetória movediça, indeterminada a priori. Em seu acontecer, ela pode ser circular e amena, linear e tensionada; pode ser abstrata e profunda, concreta e superficial. O fato primordial consiste, portanto, na escolha de estratégias adequadas, cuja meta é fazer com que a conversa possa sempre convergir para o ponto que se quer, que contenha seu próprio fundamento e suas próprias condições de existência. Que tenha um ´em si´ capaz de conferir ´a si´ o significado e a legitimidade necessários às coisas a serem ditas sobre ´si´. 

Nota-se, assim, que o dizer sectário configura-se por uma ordem de fala fechada em torno ´de si´, alimentada ´de si´, voltado ´para si´. Como um dizer que se autossegrega, confinado e encapsulado ´em si´, que simplesmente é, pelo fato de ser o que é. Este modo de ser autorreferenciado e fechado do dizer sectário desenvolve formas de autodefesa e de auto-afirmação, tendo em vista sua autoconservação, a exemplo do cuidado com a coerência, com a coesão e com a não contradição das coisas ditas.

Devido a impossibilidade social e cultural do fechamento e da autossegregação absoluta, o ´em si´ do sectário é confrontado com o ´em si´ do outro, do diferente, do estranho; os ditos e dizeres sectários entram em conflito com os ditos e dizeres dialógicos, ou seja, com aquele dizer que confere visibilidade a existência de múltiplos e diferentes modos de pensar, crer, desejar, preferir, perceber, imaginar, saber, entender, viver e ser, presentes nas falas cotidianas, nas conversações instauradas em torno dos temas problematizados, seja pela casualidade ou seja pela intencionalidade dos encontros que acontecem entre os interlocutores que convivem nos diversos espaços de conversação existentes na sociedade.

O encontro com ´o si do outro´, diferente do ´si do sectário´, põe em risco o equilíbrio e a ordem vigente dos ditos sectários. Ao sentir sua concepção de mundo ameaçada pelo outro, o dizer sectário coloca-se em pé de guerra, parte para a defesa de seus paradigmas. Fazendo da conversa com o outro, uma oportunidade de afirmação radical ´de si´, de auto defesa e de autoafirmação do campo de convergência que autorreferência.

Parece-me que o fato de nos encontramos imersos na cultura hegemônica do sectarismo aponta uma possível resposta para a constatação da existência de conversas cotidianas tecidas pelo signo do desencontro, do confronto e do conflito, marcada pelo viés de uma dialética da interdição, que bloqueiam o exercício do diálogo e do agir comunicativo edificante entre os diferentes, orientados pelo parâmetro do entendimento, da boa vizinhança e do desenvolvimento ético comum, ao abordarem temas culturais, tão importantes para o povo brasileiro, como o da religião, da política do futebol.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

DITOS SECTÁRIOS I



Erenildo João Carlos

Costumeiramente, escuta-se, no Brasil, falar que ´religião, política e futebol não se discute. O curioso é que ouvir esta afirmativa gera um certo estranhamento, sobretudo quando sabemos que vivemos em um país com uma forte tradição religiosa, com uma história de luta a favor da democracia e com uma enorme admiração pelo futebol! Ao ouvir, ponho-me a pensar sobre os possíveis motivos que impediriam as pessoas de conversarem sobre tais assuntos.

Parece-me que, à primeira vista, um aspecto da questão se encontra na formulação ‘não se discute’, um fragmento que poderia ser lido como ‘não se dialoga’. Se estivermos corretos em nossa análise, podemos concluir que os temas da religião, da política e do futebol seriam, sim, objeto das conversas cotidianas. Entretanto, de uma espécie de conversa, marcada pelo jogo do dizer retórico, orientada pela disputa e pela defesa de uma opinião determinada, de um ponto de vista específico, de uma perspectiva assumida. Ou seja, uma conversa que não seria pautada no diálogo, no desejo de compartilhar ideias e do entendimento conjunto. Uma conversa deste tipo é profundamente solitária, pois, nela o interlocutor falante, fala consigo mesmo, em uma espécie de cena, cujo roteiro, conteúdo e argumentação consiste, unicamente, em expressar para o outro o que se crê, o que se pensa, o que se admira, o que se deseja. Sem ouvir, o outro da conversa-monólogo seria o eu falante, ouvinte de si. O monólogo impede o diálogo, porque ele é auto referenciado!

Nota-se, aqui, um segundo aspecto da conversa-monólogo: as coisas ditas são alimentadas por uma motivação belicosa. No lugar do diálogo instaura-se a disputa, a luta, a polêmica. Neste cenário, vence quem escolher e utilizar as melhores estratégias de desqualificação, de desconsideração, de rebaixamento, de silenciamento, de humilhação, de apropriação ressignificada. Nele, o estado é de alerta, de defesa e de ataque. Nele, as estratégias são escolhidas em função da disputa que se pretende travar, do interlocutor-inimigo que se combate, da natureza da questão enfrentada, das implicações das ideias proferidas, da argumentação construída, dos interesses em jogo. Na conversa-guerra não há lugar para o diálogo, mas para vitórias a serem conquistadas e derrotas a serem evitadas!

Um terceiro aspecto desta conversa consiste na impossibilidade do falante ouvir com o intuito de entender e aprender, de falar com o objetivo de compartilhar o saber que se tem. Isto porque, ao conceber o outro como interlocutor-inimigo, o outro sempre será visto como uma ameaça, um perigo, um risco, um desvio, um estranho... Que poderá pôr em questão a tradição aceita, o dogma estabelecido, o interesse defendido, a verdade consagrada, o sentido instituído, o consenso normatizado, a moralidade concebida, o sagrado compartilhado, a preferência assumida coletivamente. Com o interlocutor-inimigo não se busca o entendimento, mas o convencimento!

Observa-se, que, quando as conversas cotidianas em torno do tema da religião, da política e do futebol são pautadas no parâmetro do monólogo, do agir comunicativo belicoso, da concepção de um interlocutor-inimigo, elimina-se a possibilidade do diálogo, do entendimento e da partilha edificante do saber vivido individual e historicamente construído em torno dos referidos temas. 

Com efeito, nossa reflexão aponta para o fato de que os ditos proferidos pelos falantes, numa situação de disputa, se configuram, de um lado, por um modo de dizer específico, que podemos denominar de sectário; de outro, que os ditos sectários seriam uma das principais razões da impossibilidade do exercício do diálogo. Neste contexto, conversar sobre religião, política e futebol funciona como uma estratégia de reprodução social de uma concepção de mundo profundamente sectária. Portanto, em uma cultura do sectarismo não há lugar para o diálogo!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

DITOS OPINATIVOS



Por Erenildo J. C.

Os ditos opinativos se apresentam como um acontecimento da linguagem, evidenciado no cotidiano, cujo conteúdo codifica um tipo de saber que se tem sobre algo. Enquanto fala e enunciação, este fenômeno pode ser observado e constatado no cotidiano de nossa biografia existencial, experiência social e registros históricos. Nota-se, portanto, sua presença em conversas familiares, em bate-papos entre amigos, em aulas ministradas nas escolas, em programas de televisão, em pregações religiosas, em documentários e entrevistas, em pronunciamentos de governantes, enfim, em qualquer tempo, lugar e situação em que ocorra a enunciação de algo, um gesto de comunicação, o exercício efetivo da fala entre diferentes tipos de indivíduos e sujeitos sociais.

Não obstante a evidência do acontecimento dos ditos opinativos em nossa vida diária, o seu reconhecimento não se apresenta como uma obviedade, isto é, como algo cotidianamente evidente para os sujeitos falantes e ouvintes. Em outros termos, nem sempre os sujeitos que se expressam opinativamente têm a devida consciência disto, seja em uma situação de comunicação, seja de seus efeitos sociais. Certamente, a não obviedade do evidenciado acontecimento exige uma reflexão mais cuidadosa sobre o assunto. De modo que se tenha, sobre ele, uma clareza do que, de fato, seja um dito opinativo e o saber que pretende ter.

Nesta perspectiva, parece-me que uma constatação que se pode fazer do exercício de observar os ditos opinativos no cotidiano diz respeito ao fato de que ele representa um gênero de fala, que registra a percepção, interpretação e um determinado tipo de saber do indivíduo sobre as coisas do dia-a-dia. As coisas ditas de forma opinativa não teriam fundamento consistente, haja vista ser um campo onde se pode combinar e se relacionar fatos com crenças, sentimentos com interesses, desejos com percepções, mitos com realidades. Enfim, a experiência e a subjetividade do indivíduo se constituiriam na fonte primária das formulações opinativas que se tem sobre as coisas. O conhecimento deste fato no coloca em estado de alerta com relação aos fundamentos dos ditos opinativos!

Segunda constatação. Devido a presença regular, difusa e capilar dos ditos opinativos, parece-me que não seria falso dizer que isto sinaliza que eles têm sido um modo de dizer que se apresenta como um impacto intenso na feitura de expressões, de pronunciamentos, de formulações, de comentários, de proferimentos e de posições assumidas por diferentes tipos de sujeitos em diversas situações e através de múltiplos suportes sociais. O conhecimento deste fato exige que estejamos alerta as coisas ditas que venhamos a escutar!

Terceira observação. Parece que o falante que se pronuncia sobre algo no mundo a partir do dizer opinativo tem um saber sobre este algo que se apresenta, para ele, como evidente em si mesmo, a ponto de não refletir ou questionar nem sobre o saber que supõe ter, nem sobre o modo opinativo de comunicá-lo. Tal atitude e procedimento sinalizariam que o dito e o dizer opinativo têm uma pretensão de verdade, ou seja, consideram-se como possuidores de um saber que são suficientes em si mesmos. O conhecimento deste fato exige que estejamos alerta a noção de verdade que justificam os ditos opinativos!

Desde a antiguidade, existe esta consciência reflexiva sobre os ditos opinativos. Por exemplo, os gregos inventaram três termos para designar o saber que temos sobre algo. Doxa (opinião), sofia (sabedoria) e episteme (conhecimento). A lembrar de certos escritos como o de Platão (428 ac. - 348 ac.), Francis Bacon (1561-1626), Gaston Bachelard (1884-1962) e Paulo Freire (1921-1997), por exemplo, nos deparamos com o fato de que todos eles, em tempos e lugares diferentes, em situações e domínios distintos, fizeram a crítica aos ditos, ao dizer e ao saber opinativo. Os diálogos de Platão, a exemplo do livro a República, testemunham o esforço do filósofo em refletir sobre uma determinada questão tendo em vista ascender ao mundo do espírito. Emblemático disto tem sido sua metáfora, intitulada de Alegoria da Caverna. Bacon em seu livro Novum Organum, discutiu o assunto, sugerindo a necessidade de superar o caráter opinativo que se tem sobre as coisas. São bem conhecidas suas críticas aos ídolos da tribo, da caverna, do foro e do teatro que bloqueariam a mente humana do acesso ao conhecimento. Bachelard também refletiu sobre o assunto no campo da filosofia da ciência em seu livro o A formação do espírito científico. Neste livro, encontram-se reflexões que aponta o entendimento de que a ciência avança a medida que opera rupturas no campo do saber, no sentido de distanciar-se da opinião e produzir conhecimento. Paulo Freire, em seu livro Educação como pratica da liberdade, chama atenção para o fato de que a opinião é um dos componentes constitutivos da consciência ingênua, nível de pensamento que a prática educativa problematizadora e libertadora, proposta por ele, pretendia superar.

Como se vê, a crítica secular contra os ditos e saberes opinativos indica que a opinião, ao ser empregada como um parâmetro orientador do pensamento, dos sentimentos e das ações, pode incorrer em erros, equívocos e danos ao conhecimento, às pessoas e às instituições. De modo que formar uma geração de cidadãos e de profissionais a partir da opinião seria prejudicial ao desenvolvimento da consciência crítica do indivíduo e da qualidade de vida de uma nação. 

Quem se consultaria com um médico que não soubesse diferenciar a doença da saúde e desconhecesse os procedimentos adequados à cura? Quem solicitaria o serviço de um engenheiro ou arquiteto para a construção de uma casa, de um edifício, de uma ponte ou de uma estrada, que desconhecesse os princípios básicos do planejamento e da execução destas obras? Quem matricularia seu filho em uma escola onde os professores se limitassem a dizer o que acham sobre as coisas, e que substituem o conhecimento produzido pela mera troca de opiniões entre os alunos? Quem atribuiria credibilidade ao ensino de um professor universitário que transferisse para o estudante a responsabilidade de transmitir o assunto que lhe compete ensinar? Que religioso se predispõe a ouvir um discurso carente de fundamentação teológica? Quem contrataria o serviço de um advogado que não sabe diferenciar o direito de privilégio? Quem assistiria a um programa de televisão onde o apresentador distorce os fatos, discrimina, desqualifica e dissimula em função da audiência ou de interesses ocultos? Quem votaria em um candidato que aspira a cargos públicos tendo em vista interesses estritamente pessoais e privados em detrimento dos fins coletivos e públicos? Quem aspira um governante que desconheça os fins sociais e os procedimentos adequados para a elaboração e efetividade das políticas públicas? Quem aceitaria, em sã consciência, uma fala que não contribui para um melhor entendimento das questões abordadas? Parece-me que somente aqueles que se deixam levar pelos ditos e saberes de natureza opinativa. 

Enfim, parece-me que a dominante cultural dos ditos e saberes opinativos em nossa história presente, forja sua aceitação e naturalização. De modo que, ela acabam por constituir uma subjetividade carregada de ingenuidade, de um saber frágil/confuso/restrito/mágico e de um modo indiferente do cidadão, do eleitor e dos governantes, dos profissionais, dos servidores e dos consumidores de se relacionarem com a coisa pública, com a vida e com o desenvolvimento do país.

Este acontecimento tem sido objeto de reflexão e estudo de várias áreas do conhecimento. Em todas, encontram-se fortes críticas ao caráter opinativo do saber e uma indicação razoável de que ele deve ser superado. Em função disto, emergem esperanças, utopias e projetos concretos de ação tendo em vista a constituição de sujeitos falantes e ouvintes, que possam transitar de uma cultura pautada nos ditos, nos dizeres e nos saberes opinativos para outra, alicerçada no saber elaborado. Numa sociedade do conhecimento!


João Pessoa, 01 de maio de 2014.

domingo, 23 de junho de 2013

DITOS RETÓRICOS - PARTE III



Por Erenildo João Carlos

O esforço reflexivo empreendido e os achados resultantes de nossa observação cotidiana e escavação de falas ouvidas em conversações diversas, exigem que ainda sejam assinalados alguns pontos, vistos como relevantes em nossa trajetória investigativa. Vejamos.

Primeiro ponto. Considerando que o dizer e os ditos retóricos são representantes de um modo de dizer centrado em fins, estrategicamente concretizados, pode-se afirmar, de certo modo, que eles não funcionam a partir de uma única regra ou um único jogo retórico. Ao contrario, incluem uma diversidade de alternativas possíveis, delineada a partir da natureza de diferentes fins. Graças à especificidade de cada fim, a regra ou o jogo retórico é instaurado. Caso, de fato, existisse uma única regra ou um único jogo que definisse o funcionamento do dizer retórico, poderíamos considerar que esse parâmetro seria a adequação eficiente entre os meios selecionados e os tipos/gêneros de fins desejados.

Segundo ponto. Considerando que a premissa da centralidade do dizer retórico é fundamentada no fato de que as regras e os jogos instaurados obedecem a fins estabelecidos, torna-se evidente que o conjunto de elementos retóricos mobilizados, objetiva, em ultima instância, produzir o convencimento nos participantes da conversação sobre alguma coisa. No transcorrer da conversação, o dizer retórico opera uma espécie de apropriação dos outros ditos (sinceros, verdadeiros, obrigatórios, morais, religiosos, políticos, educativos, estéticos, éticos etc.) em função de seus interesses. A apropriação ocorre por meio de uma prática de conversão efetivada através de estratégias de perversão, de inversão e de divergência do conteúdo enunciativo, constitutivo dos outros modos de dizer. Nesse processo, o conteúdo selecionado dos referidos ditos são fracionados, desconectados, resignificados, desconstruídos, desqualificados, elididos, negados, evidenciados, correlacionados, exaltados, aproveitados ou não, em função das peculiaridades dos fins retóricos almejados. Ao operar a conversão, o dizer retórico acaba por produzir efeitos de verdade e de sentido, sintetizados nos ditos retóricos, que deverão, por sua vez, serem acolhidos e aceitos como legítimos pelos participantes da conversação, serem interiorizados e utilizados como parâmetro orientador da concepção de mundo, da fala e da ação em situações concretas, vividas pelo falante.

Terceiro ponto. Considerando que os dizeres e os ditos retóricos intencionam realizar seus fins estrategicamente, devemos considerá-los, por natureza, como produtivos. A produtividade dos meios se encontra, precisamente, em sua utilidade. Ou seja, se os fins estabelecidos forem alcançados, os meios adotados cumprem sua função. Portanto, para serem produtivos, exige-se que o dizer e os ditos retóricos sejam competentes suficientemente para acionar, selecionar, mobilizar, organizar e operar os saberes existentes e necessários, para pôr em funcionamento as regras e realizar o jogo em questão da melhor forma possível, para desconstruir, reconstruir e criar, se for o caso, novas regras e jogos, apropriados à efetivação do fim estabelecido. Quando o dizer e o dito não produzem esses efeitos, deixam de ser úteis. Ao perder sua utilidade, tornam-se improdutivos e, consequentemente, descartáveis. O abandono dos dizeres e dos ditos improdutivos faz com que o fluxo da produção de novos dizeres e ditos seja uma constante da prática retórica. Além do abandono, há, no fluxo do devir retórico, a substituição e o aparecimento de novos dizeres e ditos. Nesse sentido, nota-se que é próprio do dizer e dos ditos retóricos serem, necessariamente, criativos, produtivos e competentes. O circuito de emergência, arrefecimento e extinção dos meios retóricos é uma característica da ordem estratégica do dizer e dos ditos retóricos, representante do seu modo de funcionamento e integrante das condições de possibilidade de sua existência enquanto tal.

Quarto ponto. Considerando que o dizer retórico, fundado na relação estratégica entre meio e fim, instaura a existência de um modo de ser particular no campo da linguagem, em geral, e da fala, em particular, ontologicamente assinalada por uma racionalidade instrumental, torna-se evidente a presença de um modo de existir da razão: de uma razão que ordena, classifica, articula, mobiliza, identifica e combina o conteúdo das coisas que se diz sobre algo para alguém, tendo em vista fins desejados. Com efeito, os ditos retóricos são racionais e estratégicos, são exemplos singulares de um modo de ser da razão marcado pelo crivo da estratégia, do uso instrumental da própria razão - razão-instrumento -, que fixa fins e busca realizá-lo da melhor maneira possível. Por isso que o conjunto das coisas ditas, retoricamente falando, objetiva sempre um fim determinado. De certo modo, esse modo de ser possibilita que o dizer e os ditos retóricos estejam livres do comprometimento com um conteúdo vinculado a questão da verdade, da sinceridade, do consenso, da moral, do sagrado, da ética e das responsabilidades políticas, a exemplo dos outros dizeres e ditos já mencionados e tratados nesse blog.

Quinto ponto. Considerando a linguagem como um complexo social amplo e particular, pode-se dizer, comparativamente, que assim como a literatura é a forma de existência mais rica de possibilidades da linguagem que se afirma enquanto linguagem, o dizer e os ditos retóricos representam um território da linguagem que expressam as formas mais ricas do discurso, enquanto enunciado. Em outras palavras, se de um lado, pode-se afirmar que a literatura é o modo de existência mais desenvolvido da natureza sígnica da linguagem; de forma similar, pode-se entender que os ditos e o dizer retórico são artefatos culturais da fala que evidenciam o caráter enunciativo do discurso. Sendo, por isso mesmo, os representantes mais desenvolvidos do discurso, enquanto prática efetivada. A retórica é, nesse sentido, uma ferramenta que racionaliza, de forma exemplar, as melhores alternativas para atingir os fins estabelecidos pelo falante em uma dada conversação, vivida e experimentada na imediaticidade do mundo cotidiano.

Sexto ponto. Considerando que o dizer e os ditos retóricos representam um modo estratégico e especifico de se ocupar com a questão do convencimento, pode-se dizer que eles têm assento difuso, ramificado e proliferado em diversos lugares da sociedade, haja vista serem diretamente afeitos a práticas sociais e culturais com função similar, a exemplo das práticas ideológicas desenvolvidas, por exemplo, no âmbito familiar, escolar, religioso, moral, político, jurídico e midiático. Nesse sentido, não devemos nos surpreender se reconhecermos em nós e nos outros, com quem convivemos, o uso intencional ou inconsciente do dizer e dos ditos retóricos. 

Sétimo ponto. Com efeito, nossa reflexão arqueológica aponta, dentre outras conclusões, para o fato de que (a) o dizer e os ditos retóricos têm uma existência objetiva no mundo existencial dos falantes e de que eles são, indiscutivelmente, artefatos da cultura oral, entranhados no seio das práticas sociais; (b) de que funcionam como uma espécie de marco regulatório de pronunciamentos de diferentes falantes concretos, situados em diversos lugares da vida social contemporânea; (c) de que, por fim, precisamos conhecer o modo como funcionam a fim de compreender e explicitar a maneira como interditam, produzem resistências e desviam a realização de um exercício oral efetivo, assentado no horizonte de uma ética do dizer! 


João Pessoa, 25 de junho de 2013.



domingo, 16 de junho de 2013

DITOS RETÓRICOS - PARTE II



Por Erenildo João Carlos

Antes de continuarmos nossa trajetória de escavar as camadas do dizer e dos ditos retóricos, tendo em vista conferir visibilidade às especificidades do modo como existem, parece-me necessário nos atermos um pouco em torno de um aspecto, associado ao significado dos termos ‘fins e meios’, assinalado no conjunto de nossa reflexão. Essa parada é importante para que possamos diferenciar e, portanto, não confundir, o modo singular como ‘os fins estrategicamente almejados’ aparecem no âmbito da linguagem, mais especificamente, no dizer retórico, com o modo de sua presença em outros lugares do saber, a exemplo dos que se ocupam em conversar sobre a natureza/vida e a sociedade/razão, em geral.

Em primeiro lugar, ao deslocar nossa atenção para a dinâmica da natureza, podemos notar que a fixação de fins e meios adequados e o estabelecimento de relações apropriadas entre eles são acontecimentos da ordem da vida. Em outras palavras, os seres vivos em geral são levados a realizarem fins e a buscarem meios que possibilitem sua sobrevivência. Manter-se vivo, nesse sentido, é uma questão ontológica, isto é, relaciona-se diretamente a existência da vida do próprio ser. Sem vida o ser não existe!

Nesse processo dinâmico e complexo, articulado e combinado pelas determinações naturais e seus acasos, os seres vivos lutam para viver e perpetuar suas espécies: procuram alimentos e lugares seguros; acasalam, cuidam de si, da prole e do grupo, aprendem e transmitem seus modos de lutar pela sobrevivência, sempre em situações imediatas e concretas. Nesse ínterim, cada uma dessas atividades é desenvolvida e aperfeiçoada pelo crivo da observação de acontecimentos, da imitação de comportamentos e do ensaio e erro de ações e procedimentos, vividos em diversas circunstâncias, acasos e climas; experimentadas em diferentes lugares e relações, que se estabelecem com os outros seres vivos, pela via das peculiaridades do corpo que possuem, dos instintos e das habilidades aprendidas, acumuladas por cada indivíduo singular e geração da espécie.

É precisamente no acervo proporcionado pelas circunstâncias imediatas da vida (guardada em forma de instinto e habilidades) que o indivíduo e o grupo de seres vivos escolhem os meios mais adequados para atenderem suas necessidades e atingirem o fim supremo da sobrevivência. As alternativas inadequadas colocam um risco permanente a existência dos seres vivos. Risco que podem resultar em perdas de diferentes tipos: do alimento, que resulta em fome; do ferimento, que resulta em sofrimento; do território, que resulta em insegurança; da vida, que resulta em morte. 

Observa-se, portanto, na natureza, que a complexidade da consciência e do estabelecimento (separado ou articulado) da ligação entre fins e meios se relaciona diretamente ao atendimento das necessidades impostas pela própria natureza, que exige a reprodução da espécie e sua adaptação ao meio. Do grau de consciência desse fato depende a sobrevivência do ser vivo. Quanto mais desenvolvida sua consciência, mais adaptado o ser vivo será a seu habitat. Sobreviver, nesse sentido, é uma questão de adaptação, isto é, de ajustamento adequado entre fins e meios.

Em segundo lugar, ao focalizar nossa atenção no campo da sociedade, verificamos o aparecimento de outras necessidades, que não têm o mesmo caráter natural da vida em geral, mas que também ganham um sentido necessário e um conteúdo de objetividade, em função da existência de sua conexão ontológica com a cultura da qual faz parte. Não obstante tal constatação, o que desejamos assinalar é o fato de que na sociedade, a articulação entre fins e meios aparece de uma maneira peculiar ao modo humano de ser: a articulação entre esses dois termos adquire as cores da razão. 

São inúmeras as implicações da peculiaridade desse modo de ser racional da consciência humana no que diz respeito à relação entre fins e meios. Para os propósitos de nossa reflexão, chamamos a atenção tão somente para quatro aspectos da razão, a saber: a antecipação intencional da ligação, a seleção de alternativas existentes no campo do saber, a combinação imaginária de novas articulações e a produção criativa de novos meios.

a) A antecipação intencional de fins, meios e de suas ligações. O componente humano da razão permite que qualquer indivíduo - situado em qualquer tempo e lugar da história, cuja razão se faça presente – possa ir além da fixação de fins e da escolha de meios adequados para alcançá-los. Ou seja, o ser humano, diferentemente dos outros seres vivos, pode antecipar a um só tempo os três termos da questão, antes mesmo de se efetivar a ação concreta que visa realizar os fins objetivados. O ser humano é capaz de planejar o futuro, elaborar planos para o amanhã.

b) A seleção de alternativas existentes no campo do saber. A antecipação intencional do par fim-meio e da ligação adequada entre os dois termos objetiva o exercício de escolha das melhores alternativas possíveis. O que somente pode ser levado a cabo efetivamente, quando se acessa a memória, registro do saber acumulado sobre o que se almeja. Em outras palavras, a razão, ao antecipar os três termos, mobiliza e articula o passado e o presente. Ao fazer isso, ela não se limita ao exercício da pura reflexão e da observação sistemática desinteressada do mundo concreto e imediato. Ao contrário, ela aciona a um só tempo os sabres prévios disponíveis sobre a questão e, no exato momento do desenvolvimento histórico e social, no qual se insere o indivíduo e a sociedade, escolhe as melhores alternativas. É no arquivo do saber que se encontra o acúmulo de informações sobre a articulação meio-fim.

c) A combinação imaginária de novas articulações. O exercício antecipado da escolha de fins e meios, das articulações mais adequadas entre um e outro, potencializada seja pela consciência do presente e do passado, não pode, entretanto, ser confundido com o movimento do real, haja vista ele ainda não ter acontecido na imediaticidade do mundo presente e passado. Isso significa que a razão humana tem a capacidade de produzir uma representação imaginária do futuro, ou seja, uma espécie de um mundo fora da história, um mundo ‘que pode ser, ou vir a ser’. Em função do ‘faz de conta que esse mundo exista’, a razão gera novas articulações entre os termos, que podem ou não acontecer como foi previsto, quando executadas no cotidiano, nas situações concretas da vida social. Portanto, no mundo imaginário da razão, que antecipa os acontecimentos, ocorre o exercício da produção de novas articulações entre fins e meios, cuja pertinência somente poderá ser reconhecida como válida e apropriada após sua confirmação no mundo real.

d) A produção criativa de novos meios. Em face da fixação de fins necessários naturalmente ou socialmente postos, o ser humano busca racionalmente realizá-los. Nesse processo racional, de antecipação de fins, de meios e de novas articulações, os indivíduos singulares, os grupos sociais e as formações sociais visitam o acervo existente, a memória guardada e o saber prévio acumulado tendo em vista atender suas necessidades naturais e sociais. Ao se deparar com o conhecimento da inexistência de alternativas adequadas, o ser humano entra em uma empreitada diferente, da adaptação, próprias dos seres vivos em geral, e da busca da escolha mais adequada entre fins e meio, presentes no universo do saber existente. Sua trajetória passa a ser pautada em função da produção criativa de meios ainda não disponíveis no acervo. Nesse processo ele observa, ensaia, simula, experimenta, produz novos meios. Essas ações e procedimentos almejam produzir instrumentos e tecnologias que viabilizem efetivamente a realização dos fins desejados, sejam eles necessários à sobrevivência do gênero humano, enquanto ser vivo; sejam eles necessários à cultural socialmente posta. É sabido que esse atributo da razão fez com que pudéssemos produzir diversas invenções, a exemplo do fogo, do vestuário, da flecha, das armas, da caça, do arado, da agricultura, dos utensílios domésticos, da moradia, da escrita, da imprensa, das estradas, do avião, da televisão, do cinema, do vídeo, do computador, do foguete, do satélite, das artes, das filosofias, das religiões, das ciências e de tantos outros instrumentos, ferramentas, tecnologias e práticas que serviam de meios para atingir os fins de sobrevivência e de construção de uma vida melhor, assim como, contraditoriamente, de negação da própria vida, de domínio, exploração ou destruição da natureza e de um ser humano sobre o outro.

Em terceiro lugar, não obstante o uso corrente dos termos ‘fins e meios’ circular e definir modos de significar, enunciar e de abordar o assunto em vários campos de saberes, em se tratando do dizer e dos ditos retóricos, a escavação que empreendemos, no âmbito da fala, aponta uma relação específica entre os dois termos. Neles, o caráter estratégico, seria o critério central, o núcleo de articulação entre fins e meios. É, precisamente, esse modo de existência dos ‘fins e dos meios’, que caracteriza o dizer e os ditos retóricos que estamos tratando, aqui. Nosso intuito, portanto, é o de problematizá-lo. O caráter estratégico é um componente da relação entre os dois termos que a razão opera, constrói e produz, de forma primorosa no âmbito da fala e das relações intersubjetivas socialmente construídas entre diversos falantes em situações determinadas!

Como vimos na Parte I de nossa reflexão e veremos na III, o sentido que impregna e forja a semântica dos termos ‘fins e meios’ usados no dizer e nos ditos retóricos não é o mesmo do sentido empregado correntemente quando se fala a respeito, por exemplo, de fins e meios, estrategicamente fixados, em função do atendimento de necessidades naturais dos seres vivos, em geral, ou existenciais, dos seres humanos, em particular.

João Pessoa, 16 de junho de 2013.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

DITOS RETÓRICOS - PARTE I




Por Erenildo João Carlos



É muito comum ouvirmos um tipo de fala que gera em nós, efeitos de desconfiança acerca da sinceridade ou da veracidade do que está sendo dito. 

Nesses casos, a impressão primeira que podemos ter é a de que o falante não está sendo sincero, de que ele não está dizendo a verdade, de que ele está escondendo algo relevante, de que ele está bajulando ou sendo irônico.

Falas desse tipo, carregadas de pontos que dissimulam, escondem, falsificam, adulteram e destorcem, acabam por impedir a realização de uma conversação edificante e inteligível, fazendo, assim, com que o que está sendo dito não seja considerado como uma fonte de saber e de conhecimento que poderia propiciar a elaboração de reflexões, noções, conclusões e considerações aproximadas a respeito da realidade dos fatos, ou do significado e do sentido subjetivo do falante.

Falas desse tipo desrespeitam o ouvinte, instaurando, desde o início, a incerteza, a desconfiança e, portanto, a impossibilidade do exercício de um diálogo sincero e edificante. Falas e proferimentos dessa natureza ferem, profundamente, a ética do dizer. 

Nesse texto, pretendo refletir sobre um gênero do dizer que, devido suas peculiaridades, pode alimentar a desconfiança intersubjetiva, presente nas conversações e formulações proferidas no cotidiano. Refiro-me, aqui, aos ditos retóricos. 

Ao percorrermos o curso de uma fala dissimulada, ou puxarmos os fios que tecem a ordem argumentativa que forja o jogo de ausência e de presença, de esconde-esconde da fala e das sombras e luzes do dizer, deixa um rastro de evidências que nos permite identificar o traço fundamental do modo de existência do dizer e dos ditos retóricos, a saber: o nexo profundo entre estratégia e finalidade. 

Em função desse reconhecimento, pode-se notar que a dissimulação não somente esconde a si mesma, enquanto estratégia, mas também os motivos pelos quais ela existe, ou seja, seus fins. 

Por essas razões, pode-se dizer que o falante dissimulado autêntico seja aquele que emprega conscientemente a dissimulação como estratégia para alcançar os fins que lhe interessa. No conjunto de uma fala como essa, a dissimulação aparece justificada pelos fins estabelecidos. 

Temos, aqui, portanto, o critério fundamental do dizer e dos ditos retóricos, qual seja, a fixação de fins que deverá ser atingido, independente dos meios e estratégias empregados, a exemplo da fala dissimulada, tão presente nas conversações do cotidiano. 

Fica posto, que o critério fundamental, constitutivo do dizer e dos ditos retóricos é a formulação de fins que deverão ser alcançados estrategicamente. 

Com efeito, esse modo de operar com a finalidade e a estratégia no âmbito da fala, expressa uma racionalidade totalmente descomprometida e sem responsabilidade com a ética do dizer, afeitos aos ditos, por exemplo, sinceros, verdadeiros e obrigatórios. Por isso que o dizer e os ditos retóricos, em sua versão dissimulada, desrespeita o ouvinte e gera um estado de insegurança e incerteza comunicativa. 

Assim sendo, pode-se dizer que o conjunto de argumentos, de enunciados, de significados, de sentidos, de valores e de assertivas acionado e mobilizado pelo dizer retórico objetiva convencer, converter, manipular, doutrinar, ensinar e anunciar coisas, tendo em vista a realização do fim desejado. 

O que é proferido, portanto, pelo falante retórico obedece a regra do jogo próprio da retórica, cujo traço dialético fundamental é o de a um só tempo negar qualquer regra e jogo que não potencialize a realização dos fins estabelecidos e afirmar todas as regras e jogos que possam beneficiar os referidos fins.

Na fala retórica os fins fixados determinam o que deverá ser dito; justificam a aceitação e utilização de um jogo ou regra determinada, selecionam o que é apropriado e adequado aos fins. 

Em última instância, o que põe as coisas ditas para funcionar, o que organiza e estrutura o dizer retórico é a natureza e a especificidade do conteúdo dos fins estabelecidos. São eles que deverão ser realizados, concretizados e efetivados estrategicamente. Em suma, no dizer retórico 'os fins justificam os meios'.

João Pessoa, 30 de maio de 2013.






sábado, 6 de abril de 2013

DITOS OBRIGATÓRIOS - PARTE II


Por Erenildo J. C. 

Sobre a problemática do dizer, tenho afirmado, a partir das observações e da ordem de argumentação empreendida, até então, que a fala e o dizer, possibilitadores da emergência, da circulação e do acontecimento efetivo dos ditos no âmbito da linguagem e da experiência comunicativa, produzem, dentre outros, o aparecimento de uma espécie de dito, nomeados, aqui, de ‘ditos obrigatórios’, que a um só tempo aciona e se constitui em função de uma série de valores reconhecidos, assegurados e válidos intersubjetivamente. 

Parece que, a primeira vista, ‘os ditos obrigatórios’, ao serem pronunciados durante uma conversação, evidenciam o exercício arbitrário do poder (posição social, autoridade, carisma e convencimento, por exemplo) de um falante sobre o ouvinte, de alguém sobre outrem, que, ao dizer algo, diz na perspectiva de subjulgar e governar, de constituir modos de ser, de viver, de sentir, de pensar e de falar. Nesse caso, os ‘ditos obrigatórios seriam a evidência de um tipo de experiência comunicativa, pautada na negação da alteridade, do respeito ao outro. 

Mesmo que isso seja, de um certo modo, um fato verificável em várias falas cotidianas, quando deslocamos nossa atenção para a composição da singularidade do modo de ser dos ‘ditos obrigatórios’, procurando conhecer e explicitar o que eles têm de peculiar no conteúdo de sua obrigatoriedade, deparamo-nos com um conjunto de principios, procedimentos e regras de conduta, representativos de necessidades existências e concretas, sentidas por certos indivíduos, agrupamentos humanos, cidadãos, organizações societárias, instituições, Estados e Nações. 

Nesse sentido, a observação cotidiana da experiência comunicativa nos permite identificar, pelo menos, quatro situações que indicam o chão existencial, cultural e histórico do aparecimento dos ‘ditos obrigatórios’: a) A vivência, que propicia o saber de experiência, que registra o acúmulo das alternativas mais adequadas à resolução dos problemas cotidianos e existenciais; B) A tradição, que conserva os preceitos, consagrados como certo e aceito, em formas de saberes, de práticas, de músicas, lendas, mitos, provérbios, danças, imagens, ritos, de cerimônias e de costumes específicos; C) As descobetas da ciência, geradores de diversos conhecimentos sobre diferentes esperas da natureza e da cultura e de orientação das ações e dos procedimentos mais corretos e verdadeiros a serem adotados em determinadas circunstâncias; D) As normas escritas, que prescrevem o padrão de consciência, de conduta e de relações permitidos em determinada formação social. Essas quarto situações concretas funcionam como condições de existência das necessidades, que integram a constituição da singularidade da obrigatoriedade dos ‘ditos obrigatórios’. 

O que essas necessidades apontam? Que os ‘ditos obrigatórios’ podem ser a expressão de um consenso firmado em torno de valores necessários, por isso mesmo, compartilhados e assumidos coletivamente. Em outras palavras, o reconhecimento e a garantia de algo visto como necessário, conferi ao reconhecimento dessa necessidade um estatuto de valor, assegurando seu ‘status’, na ordem do pensar, do fazer, do dizer e do vivier, como estratégias e parâmetros de convivência e sociabilidade. Os valores que emerge a partir do que é necessário, são apresentados e vistos, postos e instituídos como parâmetros que orientam e organizam as ações e as relações concretas dos individuos e das instituições. Os ‘ditos obrigatórios’ são representações sociais, concretas da maneira de como se deve agir e proceder consigo mesmo, com os outros, com as coisas e com a natureza, em determinado contexto. 

Ora, se os ‘ditos obrigatórios’ trazem à luz o sentido social de certas obrigações registradas na fala, denunciando a arbitrariedade da imposição e da negação da alteridade, ou anunciando a presença do consenso, de valores compartilhados intersubjetivamente, não devemos, contudo, confundir o sentido social do dizer com a especificidade da existência do dizer no âmbito da linguagem, presentes nos ‘ditos obrigatórios’, a saber: o fato de que são proferimentos que ativam a memória dos ouvintes sobre aquelas ações, condutas, procedimentos, saberes e práticas, considerados necessários, adequados, certos, corretos, verdadeiros e/ou permitidos em situações particulares, vividas pelos falantes e ouvintes singulares, situados em tempos e lugares determinados. 

João Pessoa, 05 de abril de 2013.



domingo, 31 de março de 2013

DITOS OBRIGATÓRIOS - PARTE I


Por Erenildo J. C. 

Tenho escrito, nos textos desse blog, que podemos aprender sobre o dizer, ouvindo cuidadosamente os falantes, que se fazem presentes nas experiências cotidianas, e a nós mesmos, no momento da conversação. O fato é que, independente do falante, a fala, seja ela, a nossa ou a do outro, as coisas ditas ou o modo de dizê-las, sempre expressam a particularidade de uma ordem do dizer, possível de ser analisada, entendida e explicitada. 

Tendo em vista a continuidade de nossas escavações arqueológicas no solo da fala, observamos a presença de uma espécie de dito que, devido suas características, podemos nomeá-lo de dito obrigatório. Ao adentrar no cerne de sua natureza, notamos que a constituição de sua obrigatoriedade se encontra atrelada, em primero lugar, à realização de certas condutas, ações, procedimentos e regras considerados necessários a determinadas situações ou circunstancias. Em segundo lugar, referi-se ao que é valorado intersubjetivamente pelos individuos, integrantes de um determinado grupo. Em terceiro lugar, relaciona-se ao fato de que o que é valorizado e consensuado intersubjetivamente, é erigido como parâmetro orientador da ação e da conduta dos indivíduos concretos. 

Portanto, os ditos não adquirem o estatuto de obrigatoriedade pelo simples fato de serem pronunciados com um tom de ameaça ou de poder. Não adquirem essa qualidade por conta da posição ou da função de prestígio de alguém. Não se encontra na autoridade, na capacidade argumentativa ou carismática do falante. O que faz com que as coisas ditas sejam obrigatórias é, precisamente, seu reconhecimento intersubjetivo. Dai porque os indivíduos, revestidos de autoridade, ou assumindo determinadas posições e funções, socialmente relevantes, devam orientar e avaliar, ensinar e instruir, falar e dizer em função dos ditos obrigatórios. A fonte dos ditos obrigatórios se encontra no seio das relações intersubjetivas e dos consensos estabelecidos entre os indivíduos, imersos no cotidiano e no contexto da vida societária.


Entretanto, ressaltamos que os ditos obrigatórios não são necessariamente verdadeiros ou éticos, pelo simples fato de serem resultantes do consenso. Vale lembrar, que na história da humanidade o consenso existiu até mesmo para justificar a barbárie, a dominação, a exploração, a exclusão, a segregação, o sacrifício, a manipulação, o controle, o preconceito, o extermínio de milhares de pessoas, a destruição da natureza e a pilhagem e o roubo.


João Pessoa, 31 de março de 2013



domingo, 10 de fevereiro de 2013

DITOS VERDADEIROS


Por Erenildo J. C.


Sabe-se que a experiência de ‘dizer alguma coisa para alguém’, por mais simples que seja, produz o acontecimento de uma situação de comunicação que exige a presença de, pelo menos, quatro características: do falante (‘aquele que diz alguma coisa’ - emissor), do dito (‘as coisas ditas’ - mensagem), do algo (‘aquilo ou aquele sobre o qual falamos’ - referente) e do ouvinte (‘o alguém’ com o qual o falante se comunica - receptor). Com efeito, a situação de comunicação é uma experiência vivida, por cada um nós, falantes e ouvintes, no cenário da cultura da palavra. 

Uma reflexão possível de ser feita, quando nos ocupamos em investigar a problemática do dizer, consiste, precisamente, em pensarmos sobre a vinculação entre as ‘coisas ditas’ e ‘aquilo ou aquele sobre o qual se fala’, isto é, sobre a especificidade de um gênero de afirmação, cujo conteúdo estabelece uma relação de correspondência entre ‘as coisas ditas’ e ‘a existência do que se diz’. Aqui, nomeados de ‘ditos verdadeiros’. Nesse ínterim reflexivo, emergem algumas perguntas, tais como: o que são ‘ditos verdadeiros’? Quais são as características constituíntes da singularidade que definem os ‘ditos verdadeiros’? Qual a relevância e as implicações sociais e cotidianas de formulações e proferimentos dessa natureza? 

Pode-se dizer, resumidamente, que os ‘ditos verdadeiros’ são formulações com caráter de assertiva, isto é, de elaborações que integram uma espécie de afirmação que pretende dizer, de fato, alguma coisa sobre algo. No caso, duas condições são imprescindíveis para a formulação de uma assertiva: primeiro que ‘o algo’ sobre o qual se fala, de fato, exista, seja no mundo da imaginação, da natureza ou da cultura. Segundo, que a formulação produzida sobre ‘o algo’ falado, isto é, ‘o dito’, de fato possa comunicar ‘alguma coisa’ sobre ele. Nesse sentido, quando ouvimos um falante ‘dizer alguma coisa sobre algo’, temos uma ideia, uma representação elaborada da coisa falada. Isto porque, nas ‘coisas ditas’ pelo falante se encontra uma série de aspectos, processos, relações, dimensões, traços, acontecimentos e modos de funcionamento que se fazem presentes efetivamente na existência concreta da coisa sobre a qual ele fala. Por isso, o entendimento de que a correspondência entre aquilo que se diz e aquilo que existe seja o critério de confiabilidade sobre as ‘coisas ditas’. No caso da situação de comunicação em questão, o critério da confiabilidade não tem sua origem e natureza no indivíduo falante, nem como centro a sua subjetividade. Com efeito, nessa relação específica de comunicação, o ouvinte avalia a veracidade das afirmações proferidas, a partir da correspondência entre aquilo que o falante diz e aquilo que foi, é ou está sendo.

A partir da reflexão empreendida sobre ‘ditos verdadeiros’, cabe-me elaborar, pelo menos, três conclusões provisórias. Primeira:  considerando que os ‘ditos verdadeiros’ estão intrinsecamente ligados às noções de verdade e de realidade, a primeira conclusão que chego, aponta para o acolhimento e aceitação positiva da ideia de verdade e de realidade, enquanto conceitos reconhecidos como válidos, graças ao entendimento de que há, na assertiva, uma vinculação necessária entre as ‘coisas ditas’ e o que, de fato, existe. Diferentemente das noções que integram à ordem de funcionamento dos ‘ditos sinceros’, ligados à centralidade do que o falante considera legítimo e da posição social que ele ocupa, ‘os ditos verdadeiros’, por conta de sua constituição ontológica, não aciona, não mobiliza e não opera com noções, tais como: significado, sentido, convicção, crença, valor, ideologia, versão ou ponto de vista ligados subjetivamente ao falante. Até porque os ‘ditos verdadeiros’ se referem aos objetos sobre os quais os ditos aludem, a saber, sobre seu modo de ser singular e suas condições reais de existência. 

Segunda conclusão. Os ‘ditos verdadeiros’ pertencem ao universo de uma série de formulações que integram um modo específico de ‘dizer alguma coisa para alguém’, intrínseco à linguagem empregada pelas ciências, sejam elas exatas, da natureza, humanas, da saúde ou da informação. Os ‘ditos verdadeiros’, enquanto proferimentos produzidos a partir da perspectiva de uma afirmação com caráter de assertiva, identificam o modo, por excelência, do dizer científico. As ‘coisas ditas’ pelo falante pesquisador, sejam elas ditas no momento da revisão da literatura ou da análise dos dados, sejam elas ditas na fase da formulação dos resultados ou das conclusões, no curso de uma pesquisa científica, se não forem ditas, enquanto assertivas, perdem sua validade científica. Certamente, os ‘ditos verdadeiros’ se encontram situados no campo da circulação e da proliferação do conhecimento produzido e acumulado. 

Terceira conclusão: Os ‘ditos verdadeiros’ também são acontecimentos comunicativos ordinárias, isto é, se fazem presentes nas formulações do dia-a-dia produzidas por falantes em suas relações intersubjetivas, estabelecidas em tempos e lugares diversos da vida social. Nessas situações existenciais e sociais, eles, assim como os ‘ditos sinceros’, também podem ser (ou devem ser) erigidos como critérios de confiabilidade das ‘coisas ditas’. Ora, se vivemos experiências cotidianas de comunicação nas quais os falantes, por mais sinceros que sejam, dizem coisas que não existem, que não são ajuizadas pela realidade dos acontecimentos passados ou presentes, cujos fatos não conferem razoabilidade e inteligibilidade e que não corroboram e confirmam o conteúdo da mensagem proferida, é evidente que ‘as coisas ditas’ estarão fadadas ao descréditos, à dúvida, à desconfiança, à rejeição e, portanto, à refutação. 

Infere-se, portanto, desse exercício reflexivo e das conclusões aludidas, que a relevância da discussão sobre ‘os ditos verdadeiros’ é uma evidência observada, seja no contexto geral da sociedade do conhecimento, que assinala a necessidade de assertivas como fundamento do delineamento da produção das ciências e tecnologias, assim como das políticas de Estado e dos governos, das empresas e da sociedade civil organizada, seja na particularidade da vida cotidiana do indivíduo, que requer o parâmetro da assertiva como norte e sustentação da existência de saberes confiáveis e edificantes, capazes de orientar a escolha de alternativas, de decisões e de ações concretas, exequíveis e consequentes, tendo em vista o uso inteligente e econômico de seu tempo, esforço e recurso, a solução de seus problemas existenciais e sociais e a realização das metas e projetos de vida, que pretendem construir. 

João Pessoa, 10 de fevereiro de 2013.